"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sexta-feira, 28 de março de 2014

Desabafos de Uma Educadora em Crise

SEM TEMPO PARA ACREDITAR

Como uma estratégia de sobrevivência psicológica, coloquei na minha mente que iria ser professora, "apesar de".

Apesar da desvalorização da nossa profissão
Apesar do salário da nossa profissão
Apesar da infraestrutura do nosso local de trabalho
Apesar das salas cheias e inquietas
Apesar de tudo isso e mais um pouco

Inclusive, apesar mas sem pesar. Ou seja, sem ir para a sala com um eterno lamento, na ladainha dos obstáculos. Amo dar aulas, acredito no que faço. Entretanto, diante da delicada realidade apresentada, não há como não dizer que o exercício docente é uma luta, e como toda luta, tende a cansar.

Ontem, por exemplo, fiquei indignada ao receber a confirmação de que deveria liberar os alunos do Colégio Estadual Josefa Soares às 22:00, por determinação da Direc. A minha aula vai até 22:30h, porém devo liberar trinta minutos antes (dizem alguns, porque o estado não quer pagar adicional noturno). Começar a aula mais cedo é tarefa difícil, pois envolveria mexer nos transportes que trazem os alunos, nos três turnos, das diversas localidades do município.

Em suma, são apenas duas aulas por semana, para o Ensino Médio, de apenas 40 minutos, mas temos que abdicar de 30 minutos, em nome do mentiroso sistema educacional público deste país. Diante disso, o meu edifício de crença na docência, se abala profundamente. 

De maneira irônica, a aula foi interrompida enquanto trabalhava um texto sobre Copérnico, ressaltando como os seus estudos revolucionaram a forma de ver a terra, e por conseguinte o mundo. Frutos do sistema educacional que temos, a turma estava com dificuldade para entender o conteúdo, então acompanhava artesanalmente a leitura e interpretação. Paramos antes do texto revelar que a revolução foi possível.

Enfim, não são os míseros trinta minutos, que me indignam como professora, como cidadã, como ser humano, mas a certeza de que o tempo passa, e as coisas não melhoram, do ponto de vista da justiça social, da ética e da dignidade, no país da Copa e da Olimpíada. Lugar em que a educação continua, "apesar de".
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