"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Desabafos de Uma Educadora em Crise


ENTRE HOBBES E ROUSSEAU
O caso do jovem negro amarrado ao poste no Rio de Janeiro.

A cena do adolescente negro amarrado ao poste, nu, e no chão quente, me choca. Grande parte da população, porém, apoia e sente um certo gozo como se estivesse sendo vingada pela violência generalizada, que assola o país. Parte da mídia, de maneira obtusa, ainda incita a turba. Tudo isso parte da ingênua concepção de que são os bandidos a causa da violência. Mas, cabe perguntar, se os bandidos são a causa da violência, qual a causa da existência dos bandidos?

O teórico do Absolutismo, Thomas Hobbes, via o ser humano como eminentemente ruim, egoísta - o lobo do homem - e por isso deveria estar submetido a um governo forte, que lhe fosse capaz de conter o instinto, através das leis e da força. Por outro lado, o filósofo iluminista Jean Jacques Rousseau, via o ser humano como essencialmente bom, mas corrompido pela sociedade que ele próprio criou, marcada pela existência da propriedade privada, e com ela da desigualdade social.

A visão de Hobbes nos isenta de responsabilidade, a de Rousseau, nos acusa. Se os bandidos existem por sermos essencialmente ruins, caberiam atitudes mais drásticas para conter a violência, como a praticada no Rio de Janeiro. Mas, se como provoca Rousseau, é o nosso modelo de sociedade que está corrompendo os indivíduos, por estar fundamentado na mais profunda desigualdade, cujo farol é a busca pelo ter, ai temos que pensar numa nova sociedade.

Logo, o jovem amarrado ao poste pode ser visto como essencialmente ruim ou como fruto da sociedade assimétrica que criamos, violenta em múltiplos aspectos, a começar pelos serviços mais básicos, como saúde, educação e transporte, até os mais variados preconceitos, dentre eles o racial. Amarrá-lo foi apenas mais uma violência sofrida nos seus 15 anos de existência, talvez nem tenha sido a maior, e está bem longe de ser a solução para o Brasil.

Para finalizar, a provocação em cima dos que ficaram contra a atitude de amarrar o adolescente, feita pela jornalista do SBT Raquel “Hobbes”, foi a de sugerir que se adotasse um bandido. Sem querer, talvez a comunicadora tenha apontado um caminho a ser seguido, na linha do que pensou Rousseau. Se cada um de nós adotasse um bandido, estaríamos fazendo a nossa parte diante do problema chamado, criminalidade. Mas precisaríamos fazer isso preferencialmente antes dele se um tornar bandido.

Imagem: Portal R7 - Captado no Facebook.

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