"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sábado, 14 de setembro de 2013

Filosóficas

A MORTE ALTERA A PAISAGEM

Passando pela rua do meio sinto falta de dona Dora, na calçada. Já na praça, falta a visão do Santana, na janela. Olho para a casa do meu Tio Chiquitinho, e ele não mais está. No Colégio, não está sentada na cadeira em frente ao portão, dona Edite, sempre delicada e sorridente. Passando pela rua do antigo quartel, vem a falta do Guido, da Marize, Cepinho, Dedé, do Marão, e do "homi", o pai da Carminha. Na minha rua, já não vejo dona Tereza, dona Marina, Seu Ernesto, meu primo Zinho, um exímio contador de causos, o Andrezinho jogando pife pafe, e seu Raimundo, esposo de dona Dete. Dentro da minha casa, a rede vazia, e a imensa falta de painho.

A morte altera a paisagem. A morte deixa feia e triste a paisagem. 

Numa cidade pequena, como a nossa, a realidade desenhada pelas mãos da morte, é ainda mais evidente. A cada passo salta uma memória, grita uma ausência. Cadê a banca de doces, da Detinha? O bar da Cabocla está fechado. Esses dias mesmo se foi Lúcia, deixando aqui a imagem das irmãs que só andavam juntas. Para cima e para baixo Conceição levava Lúcia na garupa da bicicleta Monark, e posteriormente numa moto, cuidando da irmã que tinha certa dificuldade motora. Tantas pessoas, lembranças, histórias...

A morte altera a paisagem. A morte deixa feia e triste a paisagem.

O remédio da fé ou do tempo pode até minimizar, mas não cura a dor, o assombro, e a impotência, diante de tal realidade. É simplesmente inconcebível que dentro da nossa vida nunca mais tenhamos como encontrar e conviver com as pessoas que amamos. Por isso a morte mata também quem está vivo, dificulta a nossa trajetória, torna mais árida a nossa estrada. Porque...

A morte altera a paisagem. A morte deixa feia e triste a paisagem.

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