"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Desabafos de Uma Educadora em Crise

A MENINA SUELI

Ontem a reencontrei no Rio Vermelho, já está mocinha, vendia trufas e está com um abcesso no dente. Perguntei o seu nome, me disse que era Sueli. Perguntei se estava estudando, me disse que sim. Falei que certa feita havia escrito um texto sobre ela, ficou pensativa e perguntou se eu poderia levar um dia para ela ler. Disse que sim. Perguntei sobre o abcesso no dente, me contou que estava tentando juntar dinheiro para arrancar o dente com problema. Fiquei de voltar lá para levar o texto e uma ajuda para o dente. 

Já era começo da madrugada, e a história era a mesma.

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(Abaixo o texto que fiz para Sueli, a irmã de Maria, em 28 de setembro de 2009)


Era uma lanchonete, já estavam lá quando cheguei. Estranhamente tais presenças não causam mais “estranhamento”, de tão banais que são em qualquer esquina, sinal, praça, aglomerados que podem vir a gerar dividendos para suprir as inúmeras carências das suas vidas.

Eram duas irmãs. Ambas vendiam amendoins, deveriam ter entre 10 e 11 anos. Uma era mais falante, não pedia, intimava à compra, entre rompantes de autoritarismo e chantagem emocional. A outra era mais calada, já não conseguia impor tanto o seu produto. Pareceu mais frágil, e por isso me chamou mais atenção.

Enquanto esperava o pedido sair, observava e tentava interagir com aquelas pequenas trabalhadoras brasileiras. Descobri que estavam vendendo para ajudar a garantir a sobrevivência da família, e faziam isso enquanto a mãe trabalhava nas imediações do Mercado do Peixe. No relógio, 1:00h da manhã.

A História já causava angústia, por conta da impotência diante do drama do trabalho infantil, mas tomou feições ainda mais cruéis quando a irmã da falante Maria, que se pôs a matraquear conosco, foi se afastando progressivamente até encontrar na mesa em frente uma caneta, e se pôs a pegar guardanapos e a escrever, como se tivesse sido “capturada” pela possibilidade da escrita.

Sentou e rabiscou, escreveu, escreveu!... Depois de um tempo, levantou, pois sabia que tinha trabalho a ser feito, e tornou a sentar e escrever. Relutante, levantou e sentou várias vezes, como se caprichosamente faltasse apenas um arremate, mas tivesse atrasada e soubesse que uma responsabilidade maior a chamava.

Lá fiquei sentada, paralisada, tocada, indignada. Por que roubam isso dela? Por que roubamos isso dela? Por que uma criança tem que estar ali, cansada, pelas madrugadas, se humilhando em troca de míseras moedas, enquanto desejaria estar na escola, aprendendo, lendo, com seus estojos, cadernos, adesivos, livros? Roubamos isso dela, repetia silenciosamente. Roubamos isso dela.

... E mesmo sem vontade comprei amendoins das duas irmãs, como se pudesse, com isso, aplacar um pouco a minha culpa.

2 comentários:

Milene Lima disse...

Olá... Fuçando na net, procurando imagens, encontrei teu blog e esse texto incrível. É mesmo um soco no estômago de quem tem um mínimo de sentimentalidade...

Voltarei, pois gosto demais de quem faz gritar a palavra.

Abraços.

ᄊム尺goん disse...

e eu lendo minha flor de amiga Milene
cliquei em tu por engano.
num é que amei este engano??

dica ao povo baiano (que amo)
que fico!

abraço