"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Desabafos de Uma Educadora em Crise


OS NAZICOLÉGIOS PARTICULARES E A EUGENIA PEDAGÓGICA 

Pare um pouco para observar o colégio em que você estuda, ou o colégio em que estudam os seus filhos e filhas. Quantos cadeirantes existem nele? Quantas pessoas surdas? Quantas pessoas com deficiência visual? Com paralisia cerebral? Com dislexia severa? Talvez a resposta para todas essas perguntas seja apenas um simples, mas inquietante, “não existem”. 

Seguindo a lógica do capital e do lucro, algumas “grandes” escolas particulares estão praticando uma espécie de eugenia pedagógica, ao selecionar os melhores, de acordo com o parâmetro vigente, e excluir os “não-outdoráveis”. Como na famigerada eugenia nazista, está havendo um verdadeiro e silencioso descarte das pessoas que não estão dentro dos padrões exigidos pelo sistema, baseado em cifras, cada vez mais crescentes. 

Outro dia, trabalhando essa questão em sala, um aluno falou sobre quando foi literalmente rejeitado, por um destes colégios. Segundo ele, quando a sua mãe foi até a referida instituição para matriculá-lo, ao dizer que ele era deficiente visual, ouviu do Diretor: “Mas o que vamos fazer com esse menino, aqui?” Além de ilegal, uma fala como esta fere todos os princípios de moralidade e humanidade. São estes os redutos em que estão sendo educados, os seres humanos? 

Ao ouvir o relato do meu aluno me senti envergonhada como educadora, e ultrajada como pessoa. O silêncio sobre o tema, por um lado, demonstra a delicadeza da situação de quem vivencia, desde cedo, uma sociedade contaminada por tantos preconceitos. Por outro lado, o silêncio demonstra o quão indiferentes somos, quando não vemos o problema como nosso. 

Para onde devem ir todos os que não estiverem de acordo com o padrão educacional instituído, e engessado pelos sistemas de avaliação, em massa? Tal pergunta não está na ordem do dia das pessoas, da mídia, da sociedade, mas precisa vir à tona, para impedir que cada vez mais ganhe corpo a forma neonazista assumida por algumas escolas particulares, ao instituírem uma pedagogia da exclusão. 

Incluir é entender que todas as pessoas são diferentes, e assim devem ser vistas e tratadas. Não há uma fórmula mágica e pronta, para trabalhar com a diversidade, inclusive em se tratando de pessoas com síndromes, déficits de atenção ou de qualquer ordem, porém deve haver sempre a disposição de se trabalhar, e aprender com a diferença, com os desafios, com as experiências de cada um. 

Sendo assim, por trás dos slogans, rankings, marcas, e propagandas tão chamativas, a eugenia pedagógica se dissemina. Para cada um de nós que fique, numa outra perspectiva, a pergunta feita pelo Diretor, enquanto fechava as portas para aquela mãe de uma pessoa com deficiência visual: O que vamos fazer com esse(s) menino(s)?

Imagem: Capa do curta-metragem de animação, produzido pelos Estúdios Disney: Education for Death (em português: Educação para a morte). Uma propaganda anti-nazista.

Um comentário:

Neotéfilo - J. Braga, Na raça e na paz Dele disse...

Não acreditei que esse texto ainda não tivesse nenhum comentário. Não costumo fazê-lo, mas não pude passar em branco no intrigante que foi saber do ocorrido e refletir sobre isso. Adorei Dai. Sigamos em frente! Mas fazendo diferente...

Na raça e na paz Dele,
J. Braga.