"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Guardadora de Utopias

PERENE ESTÁGIO PROBATÓRIO

Sim, continuo sendo uma contumaz observadora da existência. Quase nada escapa ao meu olhar de quem quer saber o para além do óbvio, da superfície, e das ações humanas. Eu quero (e preciso) entender, mesmo assumindo todas os limites impostos pelos nossos falhos instintos humanos, e pela nossa tendência a privilegiar os nossos pontos de vista. 

Elucubrações introdutórias à parte, trago à baila um acontecimento captado pela "lente" da minha vontade de entender a vida, a meu ver revelador de uma certa mesquinhez cultivada em estufa, do gênero humano.

Trabalho em Ribeira do Amparo, e Salvador, desde 2007. De fato não precisaria estar nesse circuito perigoso, dispendioso e cansativo, mas sou uma espécie de Dona Flor, e definitivamente amo esses meus dois "maridos": o universo onde nasci, e o que me acolheu, da capital. Se fosse para tomar uma decisão calcada no que seria melhor para a minha carreira, certamente Salvador seria a escolha, mas estudei sonhando em ser professora na minha cidade, na minha escola, para os meus conterrâneos.

No entanto, às dificuldades de ir e vir, no universo de Ribeira se somam a outras dificuldades, que apesar de parecerem menores, pesam muito para mim. Uma delas é o fato de como as questões políticas interferem nas relações profissionais e pessoais, e outra é como algumas pessoas sentem dificuldade em reconhecer que você faz um trabalho, porque ama a sua terra. O acontecimento em questão fala desse último. 

Numa reunião recente, uma pessoa de fora do contexto ribeirense me fez a seguinte pergunta: por que você ensina aqui, em Ribeira, ainda está em estágio probatório (período em que não pode haver transferência)? Já ia respondendo, quando alguém se adiantou, e disse: por causa da família dela. Fiquei olhando para a mesma, e com um sorriso de canto repliquei: ensino aqui porque eu quero, porque sempre quis, a minha família mora aqui, mas isso não me impediria de ficar em Salvador, poderia vir a qualquer momento para vê-los.

A resposta capciosa, e apressada, me fez perceber como algo que para mim é tão simples - dar aula naquela escola me faz feliz - pode ser tão incompreensível ou até mesmo incômodo, capaz de mover o "outro" a querer diluir isso como sendo apenas uma consequência, de interesses de ordem familiar. 

Me peguei remoendo essa história, no caminho para Salvador. Trânsito intenso, de vez em quando chuva, sozinha, farol alto me agoniando as vistas, fisgada nas costas, um monte de coisas para fazer quando chegasse (o que não incluía esse texto), e uma vozinha sorrateira me provocando, lá no fundo das ideias:

Ainda está em estágio probatório, Daiane?
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Um comentário:

Maria Muadiê disse...

É por um sentimento maior de família, não é Dai? Mais amplo.
Beijo