"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Desabafos de Uma Educadora em Crise



ABRAÇO DE GÊMEOS MOTIVA AGRESSÃO E MORTE

A manchete acima, veiculada num dos jornais da Bahia, nos últimos dias, me remete a uma frase instigante e intrigante, atribuída a John Lennon: vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia. Fato. Inclusive, complementando a frase de Lennon, violência que se volta até mesmo contra expressões de amor, e de afeto, como no caso do abraço entre dois irmãos, na cidade de Camaçari-BA, capaz de despertar a fúria assassina de oito jovens, que os atacaram de faca e paralelepípedo nas mãos. 

A ação criminosa foi motivada pela interpreção de que as vítimas, abraçadas daquele jeito, corresponderiam a um casal homossexual. O mais estarrecedor, portanto, é que neste caso não foram apenas as dezesseis mãos a atacarem os dois irmãos, foram milhares delas, daí a força descomunal do gesto dos oito assassinos, porta-vozes da sociedade preconceituosa, hipócrita, e violenta, em que vivemos. Com a tácita ou explícita aceitação das pessoas, continuamos alimentando uma cultura calcada no ódio contra homossexuais, negros e mulheres, sinalizado pelos índices de agressões e mortes, crescentes a cada dia. 

Numa sociedade racista, homofóbica, e misógina, você vive o paradoxo de não poder ser quem você é! Ora, você não pode ser negro, você não pode ser homossexual, e você não pode ser mulher, sob pena de ser agredido, e morto. Caminhamos para um beco sem saída. Ou paramos, e de maneira reflexiva retornamos pelos caminhos que nos levaram até aqui, ou continuaremos atacando uns aos outros, nesta viela da existência. Para fazer isso, porém, precisamos de pelo menos duas coisas fundamentais: a primeira é nos sentirmos responsáveis, em todos os sentidos, pelo que acontece com o próximo, e a segunda é assumir o compromisso de rever as velhas cartilhas, onde aprendemos a ter como verdades tantas mentiras e manipulações, capazes de nos fazer matar por causa de um beijo, de um abraço, de uma cor, ou de múltiplas cores. 

Entretanto, enquanto a compreensão e o respeito ainda figurarem como utopias, devemos, de maneira urgente, exigir que o Estado criminalize a homofobia (PL 122), assim como já o fez com a Violência Doméstica, e com o Racismo. Enquanto os obstáculos do fundamentalismo religioso não forem derrubados no Congresso, e na cabeça dos cidadãos e cidadãs vendados pela disseminação da ignorância, muito sangue ainda será derramado, manchando também as pessoas que de alguma forma contribuem para que isso aconteça. 

Enfim, não temos mais como fazer voltar à vida, Leonardo, um dos irmãos atacados em Camaçari, morto pelos furiosos golpes desferidos contra a sua cabeça. Não temos mais como fazer voltar a andar, Maria da Penha, paraplégica por causa do seu ex-marido. Também não temos como voltar atrás e mudar o destino de Luther King, assassinado por defender os direitos do povo negro, nem de tantas outras pessoas, anônimas ou conhecidas, cujas vidas foram levadas dentro dessa mesma lógica... Mas certamente podemos fazer com que essas coisas não mais aconteçam, porque ser RACISTA, MACHISTA, E HOMOFÓBICO, em larga medida é uma questão de opção, nascer Negro, Mulher e/ou Homossexual, não.
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Manchete: Jornal A Tarde, de 27 de Julho de 2012.

3 comentários:

Anônimo disse...

Quando foi noticiada a crueldade, no Bahia Meio Dia, estava na sala de espera de um consultório médico. Após saber que as vítimas eram gêmeas e a vítima fatal havia engravidado uma garota de 15 anos, um senhor, na fileira à minha frente, tirou suas conclusões e vomitou a "pérola":
- Os imbecis mataram o cara errado. Era pra matar o outro, que devia ser veado.
Enfim, o falatório até que rimou. (com ignorância, obviamente) E, pelo visto, foi aplaudido pela senhora que carregava um bebê em braços. Eram a mulher e o filho do "macho jurubeba".
Além da PL 122, outros projetos de lei têm de vir à tona, mas, desta vez, visionando, diretamente, a “educação de sala de aula”. Sim, pois o “pai da sala de espera” pode ser o maior dos idiotas, porém, seu filho não necessariamente tenha que o ser. Acredito que este projeto seja o passaporte de muitos outros.
Este também é o papel da Escola. Muito bom tê-lo sendo tratado aqui.
Que tal, da próxima vez, discutirmos a legalização da maconha? (não se nega pedido de ex-aluno!).

Lucas

dai-ane disse...

Anotado o desafio, Lucas! Muito bom o seu comentário, e muito boa a sua capacidade de perceber as coisas, as pessoas, e de ver isso pela ótica do conhecimento e ética!

A educação não pode abrir mão de tratar todos os temas que a afetam, isso é negligência!

Abraços e saudades!

Coord.Informatica disse...

gostei de suas palavras, tristes e verdadeiras...