"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Guardadora de Utopias

O CAMINHO DA EMPATIA

Não é demais afirmar que o mundo do jeito que está nos atordoa e angustia. Crianças em situação de risco, jovens em situação de risco, mulheres vulneráveis diante de uma cultura machista, idosos descartáveis, destruição ambiental, caos na saúde pública, na educação, preconceitos, corrupção, egoísmo. Para onde quer que se vá, nos deparamos com dor, sofrimento, falta de esperança. Porém, como falar de mudança quando as pessoas se sentem paralisadas, acreditando ser impossível vencer tamanhos desafios?

Talvez uma palavra, diante das milhares que compõem a nossa língua, seja o caminho, o único caminho para uma humanidade como nunca houvera, justa, digna e harmonicamente plural. Tal palavra, com ares de mágica, é: EMPATIA. A empatia evoca a capacidade que temos de nos colocarmos no lugar do “outro”.

Com Clarice Lispector, no seu conto/crônica Mineirinho, temos uma verdadeira lição de empatia. Quando nos idos dos anos sessenta, Clarice soube do assassinato de José Rosa de Miranda, o Mineirinho, foragido da polícia, com 13 tiros de metralhadora em várias partes do corpo - três deles nas costas e quatro no pescoço - a brutalidade do crime a fez descrever assim, o seu sentimento:

Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro. 

Nós somos o “outro”. Gostaríamos que ninguém se importasse com o nosso sofrimento? Certamente não. Queremos atenção, cuidado, respeito, mas só costumamos desejar isso para nós mesmos, ou para aqueles que nos são mais próximos. Decerto não desejamos o mal para quem não conhecemos, mas se não desejamos o mal, tampouco estamos fazendo por onde lhes aconteça o bem.

Ainda no mundo Antigo, um doutor da Lei perguntou a Jesus Cristo: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos? Jesus respondeu: o primeiro mandamento é este (...) ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a ti mesmo. Não existe mandamento mais importante que esse dois.” (Mc, 12: 28-31)

Cristo foi vítima de uma cultura de não amar ao próximo, Mineirinho foi vítima de uma cultura de não amar ao próximo. Quantos mais serão vítimas, ainda? Todo mundo é parecido quando sente dor, diz a música, mas não vamos esperar senti-la, para dai nos preocuparmos com as pessoas.

No seu texto Clarice Lispector ressalta, o quanto é preciso querer ser o outro, portanto é preciso não ser indiferente. Nas suas palavras, Jesus Cristo nos chama à empatia, e nos faz entender que só é Divino um amor que inclua os nossos irmãos e irmãs, filhos e filhas de Deus, tanto quanto nós. Ou seja, talvez o único caminho para um mundo melhor seja descobrir que você é o outro. 

Escrevi esse texto para a publicação, Vitamina para o coração, da Pastoral do Colégio Marista Patamares.