"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

domingo, 29 de abril de 2012

Desabafos de Uma Educadora em Crise

AS LOROTAS SOBRE O NORDESTE

Novamente o nordeste ganha repercussão nacional, por conta do seu implacável infortúnio: A SECA. Nas capas dos jornais as imagens que não OS deixam mentir: a terra rachada, a paisagem cinza, e os semblantes sofridos do nosso povo. “Não há como não se compadecer diante de uma população pobre por natureza”, eis a ideia subjacente ao discurso, ampla e renitentemente disseminada, sobre a realidade nordestina.

O Nordeste começa e termina na seca, assim como a história dos negros, no Brasil, começa e termina na escravidão. Nos dois casos a abordagem intencionalmente mutila o real, e serve aos interesses daqueles que lucraram ou lucram com ele. O Nordeste, portanto, se transformou em sinônimo de seca, como se esta fosse a grande vilã da novela nordestino-brasileira. Mas será que é assim? 

Cresci numa cidade 100% inserida no polígono das secas, e durante muito tempo os meus olhos e ouvidos me fizeram pensar na seca como a grande responsável pelos nossos problemas. Só mais tarde, na faculdade, com um misto de felicidade e indignação, pude entrar em contato com uma reflexão* capaz de desconstruir o discurso engenhoso da seca, ao adentrar nas relações de poder que se alimentam da pobreza, e se legitimam com o clima.

De lá para cá me pego pensando nas tantas vezes que lamentei a nossa (má) sorte, e de como mandacarus e o sol inclemente povoaram o meu imaginário. De lá para cá venho tentando colocar essa discussão libertadora, com os meus alunos e alunas, no intuito de ajudar a ressignificar a nossa identidade nordestina, e ao mesmo tempo combater o preconceito ainda arraigado contra o Nordeste, no Brasil. 

Há muito as elites brasileira e nordestina se beneficiam do nosso desconhecimento. Outro dia chegou à minha cidade (100% inserida no polígono das secas), uma grande empresa de fruticultura, e disse que iria plantar melão. A cidade ficou intrigada, pois nunca se supôs ser possível fazer isso lá. Atualmente, porém, o solo ribeirense permite produzir melões que são enviados aos Estados Unidos, Europa, de altíssima qualidade... Como assim? Éramos pobres, mas éramos pobres com uma certeza tão absoluta quanto falsa. 

Me sinto literalmente traída quando penso nisso. Os lucros retumbantes da empresa denunciam, ela veio plantar e colher aquilo que nos foi histórica e intencionalmente omitido, falseado. Por que nunca nos disseram que sempre fomos ricos em possibilidades? Por que nunca nos permitiram ter condições de explorar positivamente tais possibilidades? 

Enfim, desconfie veementemente quando as manchetes trouxerem o discurso da seca, essa secular lorota criada para nos engabelar, porque a seca não existe para todos, ela só existe para aqueles cujas políticas públicas inexistem. Desta forma, cabe uma pergunta: os índices sociais gritantes do Nordeste são filhos da seca? Não. 

Os índices sociais gritantes da minha cidade, e do Nordeste, são filhos legítimos da elite de rapina que compõe esse país, incapaz de pensar e se compadecer com os milhões de seres humanos vitimados pelas suas ações. Se alimentam do flagelo humano, da ignorância, disseminam a desesperança, e chegam a acreditar na própria mentira, como quando com ares de nobreza, enviam um caminhão pipa para aplacar a sede do gado humano, e não humano, submetidos à, esta sim, poderosa Indústria da Seca.

Bibliografia:
JÚNIOR, DURVAL MUNIZ DE ALBUQUERQUE - Editora Cortez 

Glossário:
Lorota |ó|
1. [Brasil, Popular] Mentira, conversa fiada; gabarolice.
2. História mal contada.

Engabelar
1. [Brasil] Seduzir; ser agradável a, para enganar.

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UOL

2 comentários:

Joel Almeida disse...

Li seu texto num post feito por um amigo no Face. Triste e, infelizmente, real sua análise. Interessante que vi sua citação a Ribeira e pensei em Ribeira do Pombal, cidade que conheço; vi que é sobre Ribeira do Amparo, conheço a região onde trabalhei nas eleições de 2004, 2005 e 2006. Me entristecia sempre ver as condições reinantes nas cidades que passei por lá.

Wilma Santos disse...

Muito Bom seu texto, eu cresci ouvindo essa Lorota a Vida Inteira sobre a seca do Nordeste, isso faz é tempo,É assim que se faz, como se diz, eles plantam uma idéia na mente do povo...é vergonhoso.