"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quinta-feira, 22 de março de 2012

Desabafos de Uma Educadora em Crise

"A REALIDADE É SEMPRE MAIS OU MENOS"

Nasci e vivi boa parte do tempo em Ribeira do Amparo, saí apenas quando passei no vestibular. Ao passar e sair, porém, parece que a minha ligação com Ribeira só aumentou. De pronto sabia, estou fazendo um curso universitário (coisa até então inusitada para qualquer ribeirense), mas voltarei para ser professora, para tentar de alguma forma compartilhar o que aprendi, com os meus conterrâneos. E assim foi, concurso do estado aberto, inscrição feita, resultado positivo. Desde 2007 sou professora do Colégio Estadual Josefa Soares de Oliveira. 

Essa contextualização inicial é pela necessidade de situar e externar algo que me impressionou muito, na semana passada. Desde 2009 mantenho um blog sobre Ribeira, alimentado pelas matérias feitas pelos estudantes. Basicamente divido as turmas em equipes, de acordo com a localidade em que vivem, e estes escolhem o que pretendem pesquisar, escrever e publicar. Na semana passada comecei a receber as primeiras matérias de 2012, e uma delas relata o grande sofrimento dos moradores de uma das localidades, também comum a outras. A grande questão é que, 

... Apesar de (eu) ser de Ribeira do Amparo, ter vivido aqui, de passar parte da semana na cidade, eu não imaginava que ainda havia algo tão extremo acontecendo, foi um susto para mim. Isso esteve presente na minha infância e adolescência, mas as mudanças sociais perceptíveis, me fizeram mais otimista. Realmente não imaginei que alguns dos meus alunos, ou alguém em Ribeira do Amparo ainda estivesse submetido a condições de vida tão indignas.

Enfim, eis um desabafo, e a seguir, a matéria: 

SERÁ POSSÍVEL VIVER AQUI?

A Fazenda (leia-se, povoado) Jitirana tem o seu nome a partir de um "mato enramador", que possui flores bonitas, mas que no período da estiagem, como agora, é difícil de encontrar. Essa localidade já deve ter aproximadamente 60 anos, e nela vivem mais ou menos 200 pessoas.

Morar nessa localidade não é fácil. Na fala de um dos seus moradores: "aqui se vive pelas graças de Deus", pois nenhum projeto político de melhoria para a localidade de Jitirana foi implementada, até então. Na localidade, ainda segundo seu morador, "vivem pessoas sofridas", que desfrutam de uma educação de má qualidade, assim como são os outros serviços prestados na localidade.


Água de má qualidade, estrada de má qualidade, esburacada, taxa de iluminação pública, para uma iluminação que não existe. Um grande absurdo que continua acontecendo porque as pessoas não se mobilizam para questionar e mudar essa realidade. A situação é tão grave que há quatro anos o poço (foto acima) de abastecimento de água está quebrado, e ninguém sabe onde foi parar o motor. A localidade está sem água desde então, e nada é feito, sequer um carro pipa é enviado para amenizar a situação.



A partir de tudo isso, só resta uma solução para os moradores, pegar água e lama numa fonte (foto acima) para tomar banho, lavar, cozinhar, e pedir a Deus que mande chuva, em pleno século XXI. A pergunta necessária após relatarmos a situação de Jitirana, é: será possível viver nesta localidade? Será que vale a pena ficar calado bebendo lama?

Colégio Estadual Josefa Soares
1º Ano C - Equipe 01

* "A realidade é sempre mais ou menos, do que nós queremos." (Fernando Pessoa)

2 comentários:

Penélope de Esparta disse...

Eu admiro tanto o amor, o cuidado e a consciência que você tem com a sua cidade, Dai. Mas vai além disso, para mim. Eu vejo como você sofre, como essas pessoas, que em muitos casos você nem conhece, fazem você refletir sobre o que é justo, o que é correto, o que pode ser melhorado. Então isso ultrapassa as fronteiras de Ribeira, vai parar nas injustiças que vemos em todas as partes, mas você está aí, como uma formiguinha, trabalhando arduamente para colocar o seu grão de areia no devido lugar.
É lindo que você se importe e que você desperte nos seus alunos esse sentimento.
Não esteja em crise. Você está fazendo muito bem a sua parte =)
Um beijo meu, educadora linda!

dai-ane disse...

Tão bom amanhecer com a sua presença aqui,Lu! Obrigada pelas palavras, pelo incentivo. Dada a limitação que é peculiar ao ser humano, ajudar a cuidar de Ribeira, é cuidar do mundo. Isso me remete ao poeta português ao falar do Tejo, e do rio que corre pela sua aldeia, me remete a Drummond e o sentimento do mundo... Ribeira é a poesia, a minha poesia para este mundo. Beijos! Saudade enorme! A sua presença faz muita falta.