"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Desabafos de Uma Educadora em Crise


"EM VEZ DE LUZ TEM TIROTEIO NO FIM DO TÚNEL"

No Egito, mais de setenta pessoas foram mortas, dentro de um estádio de futebol, por torcedores ensandecidos. No Rio de Janeiro, um jovem é brutalmente espancado por tentar defender um homem, morador de rua, atacado de maneira hedionda por alguns rapazes. Na Bahia, mais de cento e vinte pessoas já foram assassinadas dentro do contexto do levante dos policiais militares, incluindo uma mulher morta enquanto amamentava uma criança, em Salvador. Ela foi alvejada por homens encapuzados, provavelmente instruídos para incitar o terror, que desta forma teriam agido com a competência que não costumam ter, quando a missão é manter a paz.

Diante disso, e de tantas outras mazelas cotidianas ou extraordinárias, não há como não pensar: somos um projeto falido de humanidade. Aliás, sempre fomos, e continuamos ratificando tal condição, a cada dia, a cada notícia, acontecimento. Assistimos perplexos e passivos, quando não vítimas ou réus, o triste enredo da novela humana. 

Aqui e ali, alguns dos que (ainda) se importam agem, acudindo, apagando incêndios, combatendo, naquilo que parece ser uma luta inglória. Estamos chafurdando. Somos reféns de nós mesmos, e de fato tudo poderia ser tão simples, uma escolha. Não medimos esforços para construir pontes bilionárias, usinas colossais, bombas engenhosas, mas não, não conseguimos optar por aprender a conviver em harmonia, partilhando da nossa frágil condição humana.

Dai a certeza de que na raiz de todos os males que criamos, está a nossa profunda ignorância diante da existência. Menos certezas, e mais dúvidas, ajudariam a talhar um caminho menos arrogante e nocivo, mais reflexivo e próximo desta coisa tão distante que é o “outro”, nas nossas vidas. 

Se aqueles rapazes do Rio de Janeiro tivessem desenvolvido a capacidade de ser aquele morador de rua, o que chamamos de empatia, eles não o teriam espancado, ou quem sabe não existiriam moradores de rua. Se os torcedores de qualquer time do mundo compreendessem que o esporte é apenas um artifício lúdico, se os nossos governantes soubessem o que significa cuidar, alguns exemplos dentre muitos, as manchetes seriam outras. 

O que nos resta? Abrirmos oficialmente falência, e arregaçarmos as mangas na construção de outro projeto, sendo cada um de nós responsável por ele, pois não creio que haja qualquer entidade no universo que ainda nos leve a sério.

*Título: Verso da música "Mais do mesmo", Legião Urbana.

5 comentários:

Ualisson disse...

Muito Bom professora! Uma ótima reflexão... Infelizmente somos isso.

Anônimo disse...

Pena não haver mais gente como tu. Bom saber que apesar de tudo o que acontece por aí, nada aconteceu contigo. Beijo.

Lucas de Castro disse...

"O que nos resta?", ora, a única coisa a fazer é tocar um tango argentino...

dai-ane disse...

Parece ser sempre a única coisa que resta, um tango, meu caro Lucas..

Lai disse...

Emocionante tudo o que se passa nessa cabeça pensante e transforma-se em palavras...Lindo.