"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sábado, 14 de janeiro de 2012

Desabafos de Uma Educadora em Crise.

... PERMITE UMA CONTRA-DANÇA?

Não vai dar pra balançar o rabinho chamando atenção, porque o papo é cabeça, e de acordo com as parcas lições sobre evolucionismo, há muito perdemos o rabo. Não, não é conspiração contra este ou aquele fenômeno musical recente, dos inúmeros que surgem/desaparecem, é só um pouco de reflexão sobre o que está além deles.

Outro dia estava numa praça animada por músicas de pagode, com letras ricas na espetacularização do sexo, e na coisificação da mulher, enquanto diversas meninas se apresentavam aos sorrisos e requebros. Dentre elas, duas figuras se destacaram aos meus olhos: mãe e filha. A mãe dançava a coreografia que a mandava subir e descer, virar de lado, levantar a perna, a bunda, e a sua pequena, de não mais que quatro anos, repetia os movimentos, serelepe e saltitante. O que pensar diante disso?

Moralismos à parte, crescer tendo como único ou principal repertório amassar a latinha com a bunda, sendo a piriguete, a cadela, a perereca, a que da a patinha, está longe de ser o movimento de libertação sexual tão almejado pelas feministas, ou uma manifestação espontânea da cultura popular, como alguns querem nos fazer crer.

“Mas as mulheres gostam”, diz o bem intencionado rapaz, se atendo à superfície da questão. Ora, somos educadas/os para gostar ou não das coisas, e a educação está na praça, está na dança daquela mãe, nas caixas de som daquele carro, na inspiração do letrista, no meu silêncio, na sua "ingenuidade", no tosco sistema político negligente e corrupto, enfim, no todo...

Claro que o pagode baiano e o funk carioca não inventaram a sociedade violenta para com a mulher, pelo contrário, a sociedade violenta para com a mulher está se valendo destes ritmos, tão legítimos quanto contagiantes, para a manutenção da violência através da disseminação de estereótipos ligados à questão do corpo feminino, do sexo, ditando aquilo que a mulher deve ser e fazer.

Continuamos caindo nas armadilhas do pensamento, da cultura, da economia, da política, e dificilmente somos capazes de expor algo que não esteja previamente determinado pelos nossos contextos existenciais. Ao que parece, há muito perdemos o rabo, mas ainda não sabemos fazer uso dos recentes e sofisticados recursos do nosso cérebro, para compreender e questionar a sociedade que nós mesmos criamos. Apenas dançamos a sua música.

2 comentários:

Anônimo disse...

Tem que publicar em outras midias, tem que levar o texto para os pais\educadores... Tem que desabafarem em todas as artes, todas as linguagens possiveis... Tem que "tocar" nas rádios, em alto e bom som para acordar do sono... Ou melhor da letargia profunda que parece ser provocada por estes mantras da estupidez acondicionada de maneira quase portatil no fundo dos automóveis...
Vejam, até a pouco nenhum comentário havia sido postado, será que vc que agora lê ficara tambem no silencio conivente da omissão...(?)Acredite que indignados e bradando em unissono derrubaremos esta ditadura da mediocridade, sim, instalaram a Ditadura da Mediocridade, e ela toca e entorpece este povo desgarrado de critica e autocritica... Vamos fazer barulho à nossa maneira, professora!

raniery caetano - Cipó-Ba

Daiane disse...

Manter acesa a chama da reflexão já é uma luta, neste mundo de meu Deus...

Bom te encontrar aqui, poeta, sentir a sua vibração e intensidade!

Abraços!