"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Memórias

(Revista Veja, edição de 16/09/1998)

PRA FORA E ACIMA DA MANADA*

Quando ainda era adolescente na pequena cidade de Ribeira do Amparo, estava lendo uma matéria na revista Veja(imagem acima) e, para minha surpresa, lá estava o nome de Ribeira. A matéria falava das 50 melhores cidades do Brasil, e das 50 piores cidades do Brasil, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano - IDH, medido pela ONU. 

Ribeira do Amparo estava entre as 50 piores cidades, mais precisamente a 26ª pior cidade do Brasil, em termos de Índice de Desenvolvimento Humano. Eu sabia da dura realidade do lugar onde nasci, era visível, mas certamente não imaginava essa proporção.

... Fiquei assustada, triste, indignada com a situação trazida pela matéria, e acreditei que o que eu poderia fazer, naquele momento, era compartilhar a notícia com os meus conterrâneos. Estaríamos neste ranking perverso, mas pelo menos teríamos consciência disso.

Então fiz cópias da matéria, e fui afixando em alguns pontos da sede do município, ciente de estar prestando um serviço de utilidade pública, importante para todos... Ledo engano! Logo em seguida um certo professor, envolvido na política local, saiu rasgando a matéria e dizendo para as pessoas que eu estava era "falando mal de Ribeira"... Descobri isso ao ver uma das cópias aos pedaços. 

Absorta, naquele dia aprendi que você tende a correr muitos riscos quando opta pela verdade, como ser atacado, humilhado, incompreendido... Muitos se alimentam da mentira, e os seus apetites são vorazes, tanto quanto a sua sanha em atacar, para defender os seus interesses mais egoístas. 

De lá para cá muitas coisas aconteceram, muitas coisas como esta aconteceram, muitas coisas como estas irão acontecer... Em todas elas, sobretudo quando tentam "rasgar" a minha fala em virtude das conveniências e dos apetites, emerge essa memória da minha utópica militância solitária, empunhando algumas cópias das páginas de uma revista, numa das 50 cidades mais carente do Brasil, e digo a mim mesma: 

... que bom que você não desistiu.

Texto em homenagem/agradecimento à minha aluna Lorena Oliveira, do Colégio Marista - Nono Ano A, pelas sensíveis, belas, precisas, e importantes palavras ao final do ano letivo de 2011. Quero que saiba: eu desanimo, mas não desisto.


* Música Incidental - Vaca Profana, Caetano Veloso.

Um comentário:

Anônimo disse...

É complicado ser a ovelha negra, a que vai contra a maré...