"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Desabafos

SEGREDINHOS AO ASNO
Ou a ópera-bufa do preconceito contra o Nordeste.


Não existem pessoas superiores ou inferiores. Lamento chocá-lo deste jeito, mas não tinha outra maneira, haja vista permaneceres na ignorância em pleno século XXI. É feio, não insista. Não vai conseguir ser melhor porque a cor da sua pele é mais clara, nem por beijar alguém do sexo oposto ao seu, ou por ter nascido nesta ou naquela cidade/lugar, ou por seguir aquela, das várias religiões do mundo.

O tempo, a ciência, a história pôs em xeque tudo isso, e agora nos resta enfrentar a dura realidade de que não podemos nos sentir melhores, simplesmente desqualificando ou rebaixando o “outro”. Nós somos essa coisinha mais ou menos mesmo, chamada ser humano, vivemos porcamente alguns anos, não séculos, quiçá milênios, e estamos submetidos às mesmas despóticas e repetitivas necessidades de beber, comer, expurgar, beber, comer, expurgar, beber, comer, expurgar, ad aeternum, enquanto vivos, e sãos.

Também não temos acesso a quando, onde e como iremos partir, mas todos iremos. Nem temos acesso a como, onde e quando irão partir aqueles que amamos, mas todos irão. Portanto, além da irmandade fisiológica, enquanto vivos e sãos, partilhamos a finitude, as dores e angústias, de uma vida incerta... 

Sei que não é fácil assumir isso, a nossa transitoriedade, a nossa limitação, a nossa infinitesimal existência, porém é o mais honesto, da nossa parte. Acreditar numa superioridade nos faz ter alguma espécie de conforto, um trono existencial orlado por seres que seriam a prova cabal de que valemos um algo mais, porém carece de verdade, soa patético. 

É como se você insistisse em encenar o seu grandiloqüente papel de pseudo-protagonista da espécie humana, com os seus pares, enquanto a platéia o assiste como ópera-bufa!... Desta forma ainda vivem determinados brasileiros. Mundo afora sofrem preconceito, pela nacionalidade, país adentro disseminam preconceito, pela regionalidade. Em destaque, a lógica-bufa do preconceito para com o Nordeste.

Em recente episódio, vaza um conteúdo do pré-teste do Enem, numa escola do Ceará, e danam a dizer: “só poderiam ser nordestinos”? Como assim, cara pálida? Foi um fenômeno geográfico? Seguindo a mesma linha de raciocínio, então, o massacre na escola do Rio de Janeiro, foi um fenômeno carioca, fluminense? Ou a construção de um shopping, em São Paulo, em cima de uma bomba de gás metano, seria um fenômeno paulista? 

Os comentários preconceituosos contra nordestinos se proliferam, e são de uma imbecilidade insofismável, alimentados por estreitezas e rancores injustificáveis, dignos apenas da ópera-bufa nacional! Esses tais arianobrasileiros se retroalimentam das suas ignorâncias, e correspondem, nas suas ações, à expressão latina: asinus asinum fricat, ou, um asno coça(ndo) o outro. 

Que me perdoem os asnos.


Imagem: Os asnos de Buridan. Segundo Buridan, mestre e reitor da Universidade de Paris na primeira metade do século XIV, a vontade segue necessariamente ao intelecto, mas quando o intelecto julga iguais dois bens a vontade não pode decidir nem por um nem por outro, é o caso do asno colocado entre dois feixes iguais de feno. A imagem ao lado mostra como a presença de um segundo asno resolveria a questão e sugere um outro fator condicionante da vontade além do intelecto: a sociabilidade.

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