"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Da série: Desabafos de uma Educadora em Crise

A ESCOLHA FUNDAMENTAL

"De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração."
(Mt 9, 21)

Quando era criança ouvia conversas na casa de vovó, sobre uns tais caminhos da vida. Um era largo, outro era estreito e difícil. O caminho largo era o caminho do mal, já o estreito e difícil era o do bem. Aquilo me intrigava! Como poderia ter o mal tamanha facilidade, e o bem não? Corríamos o risco das pessoas optarem pelo mal, pois ninguém vai optar pelo sofrimento, ora bolas!

... Mas ainda era uma criança, e as coisas estavam situadas no campo das possibilidades. A realidade ainda era uma realidade inventada, lúdica, entre casinhas feitas com o pé enfiado na areia, e brincadeiras de pega-pega. Até os oito anos morei na casa de vovó, na zona rural do município de Ribeira do Amparo.

O tempo foi passando e a criança que fui, sempre atenta às questões discutidas pelos adultos, começou a cada vez mais fazer questionamentos sobre a vida, as coisas, a perceber fenômenos que a intrigavam muito, como as mortes de crianças recém-nascidas, chamadas de anjinhos, descendo a estrada de barro em pequenos caixões levadas pelo pai, algum irmão pequeno, e um cachorro magro.

O tempo continuou passando, e mais descobertas foram sendo feitas, e mais inquietações foram sendo depositadas na minha alma. Lembro de um dia, sentada na sala da casa de vovó, quando passou um homem na estrada, raquítico e com uma barriga enorme. Perguntei aos que estavam o que ele tinha, a resposta foi "barriga d´água". Perguntei o que era barriga d´água, e descobri ser uma doença causada pelo schistosoma mansoni, que até hoje infesta o rio do município. Poucos dias depois ele morreu. 

Essas experiências me faziam perceber como era de fato a realidade da vida, como era a realidade da vida em Ribeira, e mobilizavam em mim emoções e pensamentos que me faziam sentir responsável, porque era como se aquele sofrimento fosse comigo, fosse em mim. Como na música, não sei qual "força" nos faz ser assim, nos leva a este canto, se começa dentro ou fora, se concomitante, se é divino ou humano, ou humano e divino. É fato, porém: eu me importo com tudo isso.

Quando, contrariando todas as probabilidades, passei no vestibular de uma Universidade Estadual, depois de ter estudado nas escolas públicas de Ribeira, me senti ainda mais responsável, com vontade de ajudar. Como passei no vestibular para História, era através da Educação que ajudaria Ribeira. A primeira vez foi nos idos de 2001, já na Escola Estadual Josefa Soares. Faz 10 anos, então, que procuro fazer isso. Onde quer que esteja faço Ribeira presente, assim como o que vejo de bom e belo procuro levar para Ribeira.   

Foi assim, no entanto, que entendi plenamente o significado dos tais caminhos da vida, e de como o caminho do bem é estreito e solitário! Posso falar isso com toda a propriedade, pois estou sempre pensando em alternativas para ajudar a cidade onde nasci, e onde até hoje as pessoas vivem sem ter oportunidades, sugadas por alguns que vivem de mantê-las sem condições de realizarem os seus sonhos, enquanto estes alguns vivem querendo desmerecer o que faço. Por que fazem isso? Simplesmente não querem que nada mude.

Por que faço ações por Ribeira? Porque ajudar Ribeira me faz feliz. São noites de sono perdido, dinheiro gasto (mesmo sem ter) em viagens e eventos, riscos que já corri e corro nas estradas, mas me sinto realizada em estar com os meus alunos, com os meus conterrâneos. Definitivamente não nasci para trilhar o caminho largo e cheio de benefícios fáceis, prefiro o caminho das pedras de fazer o bem. Pois, como diz São Mateus no seu Evangelho, a fé é uma prática. A prática da primeira lição Divina: AMAR. A minha escolha fundamental.
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3 comentários:

Anônimo disse...

É magnífico quando alguém ama o que faz, simplimente por querer o melhor ao próximo, por tentar melhorar o mundo. A pior parte disto é que ainda a desmerecem, que gente sem miolos !
Mas parabéns, por ser quem você é e não querer mudar.

Eva Rios de Várzea do Poço disse...

Pró Dai,parabéns pela sua luta,feliz é aquele que tem vc por perto.Estamos distantes em km,porém sinto sua presença perto de mim,sinto-me lizongeada por ter sido sua aluna apenas por dois dias,aprendi muito com vc.Saudades pró,um abraço!Que Deus continue a te abençoar!

dai-ane disse...

Obrigada, Eva! Felicidade foi a minha, de estar com vocês. Em breve retorno. Abraços!!