"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Da série: Desabafos de DUAS Educadoras em Crise

MEIA-ENTRADA PARA PROFESSORES/AS

De Luciana Ramos:

Semana passada fui assistir "As centenárias", com Marieta Severo e Andrea Beltrão. Depois de uma semana com mais de trinta aulas, ansiava a hora de recarregar minhas baterias, degustando a essência cultural proporcionada por essas duas renomadas atrizes. O teatro Castro Alves, entre outros, se tornou o espaço cujas lembranças de peças e shows marcaram minha infância e adolescência  Chegamos, preocupados em chegar a tempo e já não encontramos facilidade para estacionar e tivemos que caminhar do Garcia para o Campo Grande.  Tinha separado minha carteira de docente, cujo sindicato havia enviado no início do ano, e que tenho tanto orgulho de carregar comigo. Representa tantos anos de estudo, de experiência em sala de aula, tantas noites elaborando e corrigindo, cuidando não só do aprendizado, mas também do ser humano que ali se forma, muitas vezes sem apoio da família, que transfere essa responsabilidade, e a sociedade assina embaixo. Ao chegar no balcão, toda feliz, apresento a carteirinha, esperando o incentivo à cultura para professores, pagar meia entrada, como aconteceu em tantos eventos culturais aqui mesmo em Salvador, porém, a moça da bilheteria foi ríspida em informar que "professor não tem meia entrada no TCA". Fiquei ali, indignada, tentando entender o porquê desse não incentivo, justamente de um órgão do governo, que deveria motivar a frequência, não garantia minha meia entrada. Reclamei e percebi que nada adiantava. Eu deveria ter comprado na mão dos cambistas, mas daí iria contribuir para essa falta de respeito, já que trocado não dói. Meu marido passou a frente, temendo que eu resolvesse esquecer o engarrafamento que atravessamos para ali chegar, o trocado do guardador de carro, em frente ao Bradesco, e a grande vontade de assistir à peça e decidisse voltar pra casa. Pagou o valor das inteiras e fiquei ali, assistindo um monte de gente, que tem carteira de estudante falsa, em sua maioria, entrar,  sorridente. Andrea e Marieta conseguiram me fazer dar boas gargalhadas e me emocionaram muito em vários trechos da peça, mas a indignação continuava engasgada, remoendo, remoendo... 


Cara Luciana,

Excelente desabafo. Já me peguei inúmeras vezes me perguntando isso, e não indo ao TCA exatamente por essa questão. Valorizo a cultura, mas não valorizam o meu trabalho de maneira que possa, com o meu salário, pagar para sentar numa das fileiras do Teatro Castro Alves, numa Salvador que nem a praça, é mais do povo.

Esses dias ouvi Elisa Lucinda no Roda Baiana, ela disse que faz questão de ceder meia entrada para os professores e professoras, em todos os lugares do Brasil, e a responsável pelo teatro Jorge Amado falou de como é imprescindível que o artista queira e permita isso também.

A situação, de qualquer modo, é aviltante. Confesso que estou em momentos de extrema descrença frente ao gênero humano, quanto mais remamos em busca de um porto mais digno para se viver, mais vemos o triunfo das nulidades, dos enganadores, dos hipócritas, dos que nada fazem pelo outro...

O que fazer? Num mundo de poucas alternativas concretas, resta-nos resistir, e disseminar a palavra e o exemplo de que NADA DISSO DEVERIA SER ASSIM.

Abraços,

Daiane Oliveira

3 comentários:

Clau Souza disse...

Já tem um bom tempo que decidi fazer Letras... e em meio a família, amigos, colegas de trabalho e namorado, pouco são aqueles que me apoiam nisso. Não por qualquer falta de respeito a essa profissão, mas pela falta de respeito da própria sociedade...
Eu continuo batendo o pé e seguindo rumo aquilo que eu sei que vai me dar muito orgulho...

E não vamos nos calar... Isso tem que mudar no TCA.

Maria Muadiê disse...

A verdade é que o nosso trabalho é tão baixo que com ele não podemos pagar uma boa escola para nossos filhos.
Quer pior incentivo a cultura que esse?

Luciana Ramos disse...

Eu pago, Marthinha, confesso que até mais caro que os pais que "compram" esse serviço da escola. Pago com o suor do meu trabalho, aliás, é o que me faz continuar... Percebo, hoje, quantos anos de pagamento tenho feito, não só sendo mãe dos meus, mas sendo mãe dos outros, alunos que são entregues à escola, depositados lá, como o pagamento de suas mensalidades. Pais que não olham os filhos nos olhos e não ensinam o valor real das coisas, nem das pessoas. Mas eu tô cansanda. Não sei se seria feliz fazendo outra coisa, vc sabe bem. Mas ando cansada de tratar e ser destratada, de cuidar e de não cuidarem de mim, de ensinar respeito e me sentir desrespeitada ...
Lu Ramos