"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Da série: Desabafos de uma Educadora em Crise

SÍNDROME DO VESTIBULISMO ALIENANTE


As crianças chegam à Educação Infantil, no caso da escola particular, aos dois anos, seguem pelos nove anos do Ensino Fundamental, mais três anos no Ensino Médio. São aproximadamente 16 anos das suas vidas até completarem a última etapa da escolarização básica. Ávidas por lucro, porém, muitas instituições de ensino querem nos fazer crer que todos esses anos dedicados aos estudos, servem única e absolutamente para o famigerado vestibular.

O mais impressionante, neste quesito, é como estamos reféns desta noção. Famílias, professores, alunos/as, etc., todos/as passamos/as a pensar a educação através do ensino vestibulesco, e muitas escolas se vendem como as melhores para prestar esse serviço “sujo”, transformar a educação em mercadoria. A tal ponto chegamos, que dizem haver escolas se recusando “gentilmente” a aceitar alunos com alguma necessidade especial, visando um ranking atrativo para novos clientes. 

Com a conivência de parte dos professores, como aqueles que se submetem aos outdoors de maneira risível, instituições de ensino se transformaram em caricaturas grotescas de educação. Treinam, ao invés de educar. Ensinam à luz do que vai cair na “Federal”, na “Católica”, no Enem...  Tomemos como exemplo, a Primeira Guerra Mundial, que matou mais de 11 milhões de pessoas, e passa a ser importante, não pelos milhões de mortos, pelas relações de poder da Europa para com o mundo, pelas consequências geopolíticas deste conflito, mas pelo fato de “cair na prova”.

Como mais frágil dentre os seres vivos, o homo sapiens sapiens sempre precisou da mediação do outro, no seu processo de sobrevivência e humanização. Daí o fato de a educação ser imprescindível entre nós, exatamente por não nascermos prontos. Dada a complexificação da sociedade, no entanto, além da educação não formal foi necessário criar espaços de educação formal. Precisávamos garantir, com isso, que o conhecimento historicamente construído passasse de geração para geração. Infelizmente a “posse” desse conhecimento passou a ser reflexo das relações de poder, ao longo da história.

Sob a égide do capitalismo, modificamos o sentido da educação para que coubesse no nosso bolso, materializado em cifras. Educação virou mercadoria, e a grande estratégia dos empresários deste setor é fazer crer que o grande sentido da escola é preparar o indivíduo, durante quase duas décadas, para fazer uma prova que dura algumas horas. E o pior, nós acreditamos nisso.


Ninguém percebeu, ainda, que o funil do vestibular não existe mais como há algum tempo atrás. Principalmente nestas escolas particulares, a maior parte dos pais que pagam a escola, podem pagar um curso universitário para os/as filho/as, nas inúmeras instituições privadas do país. Inclusive algumas delas com cursos de referência. O modelo de avanço das vagas do Ensino Superior decerto não foi o ideal, mas torna injustificável o martírio dos estudantes das escolas particulares, que têm aulas e avaliações em escala industrial, todas orbitando em torno do vestibular.

Não obstante as relações de poder influenciarem no acesso e qualidade, não podemos esquecer que a educação não se reduz a mecanicismos, mas passa necessariamente pela jornada em busca da nossa humanização. Porém, o ser humano, parafraseando Paulo Mendes Campos, não faz parte do programa escolar. Utópico? Até hoje sim, mas as utopias se realizam quando um ousa dizer não ao que está imposto como regra, como o fato de apenas uma minoria sempre se dar bem.

O que estamos fazendo com a educação, dentro das escolas particulares? Impregnando a Síndrome do Vestibulismo Alienante, condicionando os olhares em formação a apenas enxergarem um horizonte sem múltiplas escolhas reais, sem verdadeiro gabarito. O que estas escolas, professores, e determinadas famílias pensam disso? Simplesmente não pensam. Isso não cai no vestibular.
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