"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

domingo, 8 de maio de 2011

Da Série: Desabafos de Uma Educadora em Crise

EDUCADOS PARA O ÓDIO
A moral cristã e a Lei que reconhece a união entre pessoas do mesmo sexo.

Certa feita ouvi uma piada sobre futebol. A piada era algo sobre o fato de serem duas dezenas de homens/pessoas correndo atrás de uma bola, cena um tanto quanto patética, se vista sem a aura lúdica do esporte. Se estendermos isso aos prantos, brigas, agressões, gritos, urros e xingamentos dos torcedores, você tende a sair horrorizada/o de um estádio de futebol. Entretanto, não estranhamos o futebol, com seus torcedores e jogadores, pois nossos olhos foram “treinados”, moldados, educados, para acharmos tudo isso “normal”.

Não é novo, então, saber que o “normal” ou o “anormal” são definidos pela cultura. E nós tenderemos a achar “normal” o que nos ensinaram ser “normal”, e a achar “anormal” o que nos ensinaram ser “anormal”. O normal e o anormal, por serem definidos a partir da cultura, variam no tempo e no espaço. O que era anormal ontem pode não ser hoje, assim como o que é normal no Brasil, pode não ser noutro lugar. Logo, o que é “normal” ou “anormal”? Depende de quando, e onde você esteja, ou da sua capacidade de ver além dos muros culturais.

Assim, por exemplo, certamente acharíamos um absurdo encontrar alguém pelado nas ruas, no trabalho, como se o nu fosse um crime, mas, por outro lado, acharíamos também um absurdo alguém com roupa, se estivesse na praia. Ou seja, se nos permitirmos um afastamento, um estranhamento diante dos nossos comportamentos, (por mais simples que pareçam ser) como achar mostrar o corpo “normal” e “anormal”, ao mesmo tempo, já nos faria supor que há algo a ser pensado sobre nós, não necessariamente sobre o outro que nos afeta.

Por isso, também, inúmeras são as vozes contrárias, em tom depreciativo e violento, mobilizadas, não para salvar as criancinhas da Mortalidade Infantil, ainda vexatória no nosso país, ou coisas assim, mas contra o reconhecimento do relacionamento homoafetivo, pelo Estado brasileiro. O Estado é laico, não legisla baseado em crenças, mas no que acontece no mundo real, visando uma cidadania cada vez mais ampla. E no mundo real existem famílias constituídas por casais homossexuais sim, e não deixarão de existir porque alguns simplesmente não concordam.  Entenderemos esse movimento contrário à lei, a partir da incapacidade dessas pessoas de se perceberem dentro de uma sociedade que as programou para agirem assim, ainda por cima convencidas de fazerem o certo.

Imersas numa cultura de base judaico-cristã, parte da sociedade brasileira ainda vê como anormal a homossexualidade, buscando exterminá-la ou renegando-a ao ostracismo, sem conseguir alcançar que estão diante de uma característica inerente ao comportamento humano (e não apenas humano), presente desde tempos imemoriais. Normal ou anormal? Depende de quando, e onde você esteja, ou da sua capacidade de ver além dos muros culturais.

Tais pessoas são mobilizadas pelo ódio cego, pela rejeição que foram ensinadas a ter. Elas representam o lugar comum, o torcedor inflamado e ensandecido contra a derrota do seu time, o animal com tapume nas vistas puxando a carroça da história, impedido de ver o que está dos lados e atrás dele, obedecendo ao senhor que se beneficia da sua ignorância.

A homossexualidade não existe por uma escolha humana. Está presente na Natureza, e na sua natureza. A homossexualidade é para uns, a heterossexualidade para outros, para todos existe a capacidade do amor, cada um do seu jeito, mas sem que um jeito se sobreponha ao outro, em valor e dignidade.

Muitas religiões ainda não conseguem entender isso, conceber que pessoas do mesmo sexo podem se amar, constituir uma família, porque entre elas não há fecundação, e com isso procriação, cabendo a pergunta:  Só é permitido o amor, se houver procriação? E quem não quer ter filhos, quem não pode ter filhos? É o amor sustentado pelo sexo para procriação? Bem, se, nessa lógica, o sexo precede o amor, então está explicado porque, fora os homossexuais, a Igreja já se recusou a abençoar algumas relações de pessoas com deficiência física, mesmo sabendo que o primeiro e maior de todos os mandamentos fala de amor, e não de sexo.

Perceber que a nossa forma de pensar e agir é predeterminada pela nossa cultura, deveria ser uma tarefa simples, e recorrente nas nossas vidas, sob pena de sermos meros reprodutores de comportamentos, muitos deles incoerentes, alguns patéticos, outros tantos violentos. Poucos, no entanto, são os que conseguem alcançar esse entendimento, vários de nós são como mortos-vivos, alimentados pelo senso comum, depositário, por sua vez, de modelos esculpidos há décadas, séculos, milênios...

Essa cultura morta-viva, incapaz de ver além dos muros culturais, sectária ao extremo, é o guia da nossa sociedade. Não atualizamos a cultura à luz das experiências que viemos adquirindo ao longo da história, principalmente de como as idéias são frutos, ou servem de sustentáculos às relações de poder. A quem interessava a dominação dos negros, sua caracterização como um ser não humano, passível de ser escravizado? A quem interessa dominar as mulheres? A quem serve a perseguição aos homossexuais? Por que não derrubamos os muros, a hipocrisia, e arrancamos as máscaras?

Parabéns ao Supremo pelo reconhecimento das relações homoafetivas, atitude coerente, racional, humanizada. Chega de mantermos um Estado republicano que desonra a idéia de República, ao não garantir a res publica, a coisa pública, de todos, do povo. Todos/as são iguais, mesmo que alguns não queiram. Quanto ao amor, que ele seja realmente o primeiro dos mandamentos. Quanto aos que falam em nome de Deus, não esqueçam que, quem sabe prevendo o uso do seu nome para fins de todo tipo, inclusive os torpes, já anotava no seu segundo mandamento: não use o meu nome em vão. Parem de usar o nome de Deus, então, numa forma de educação para o ódio. Sabemos que a lei provavelmente não fará milagres, como fazer os cegos pelo ódio passarem a enxergar, mas fará justiça para com aqueles que durante séculos, não tiveram direito de existir à luz do dia.
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