"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quinta-feira, 31 de março de 2011

Da série: Desabafos de uma Educadora em Crise

A ARTE IMITA A VIDA


Na TV o sofrimento se prolonga mais um dia, mas não é o jornal, eis a novela. Estamos falando da mocinha que se contorce de dor, enganada, injustiçada, trocada, ou qualquer um dos vários golpes que sofreu, sofre, e sofrerá, durante 99,8% do tempo em que o folhetim ocupar o horário nobre. Os outros 0,2% diz respeito ao 0,1% de felicidade do primeiro capítulo, e do 0,1% da última parte do último capítulo.

Apesar de saber que, do outro lado da tela, deixamos um pouco de lado os problemas reais para sofrer junto com os/as protagonistas da ficção, não é desta questão em si que pretendo tratar, mas da angústia-angustiante que é não poder desmascarar o/a vilã/o!  

A angústia vem a cada novo sofrimento da mocinha, e o angustiante vem do fato de NINGUÉM naquela novela perceber quem está por trás de tudo isso!  

Do lado de cá da tela, chegamos a achar ingênuos, trouxas, ou coisa pior, todos que não conseguem perceber, o que nós rapidamente percebemos, temos pleno conhecimento e convicção: o (antagonista) com cara de bonzinho não vale nada. Outra coisa, falamos isso com a certeza de que jamais cairíamos na sua teia. 

A arte imita a vida! 

Sala de aula, o assunto é Rússia czarista, e propositadamente pinto a dominação dos Romanov com as cores mais fortes: população majoritariamente camponesa, em regime de servidão, que não possui a terra, etc. Depois disso, a pergunta cabal: os russos amam ou odeiam o Czar? Em coro e indignação, a turma responde: odeia! Lanço mais uma pergunta: e vocês, iriam gostar dele? Novamente o coro inflamado: não! 

... Depois de esperar aquietar o quase levante contra o czarismo, provoco, dizendo: lamento turma, eles amavam, e vocês também amariam, se lá estivessem. Como uma família estaria assentada no poder, há séculos, em cima de milhões de pessoas, se estes não fossem manipulados na sua forma de ver a realidade? Essa é a lógica.

Quando por esses dias tentava começar um assunto, na sofrida realidade educacional da minha terra natal, Ribeira do Amparo, fui tomada pela recorrente angústia de que não sabiam do que se tratava. Parei então para perguntar por que ninguém sabia? Sobreveio o angustiante, quando se responsabilizavam por não saberem. 


Se um não sabe, dois não sabem, seria um problema individual, mas quando, literalmente  ninguém sabe, o problema é coletivo, é sistêmico. O problema de um sistema educacional feito para não saberem. Entretanto, se não sabem, como saberão? Angústia-angustiante. Mesma programação.

A trama da história é assim, tecida por antagonistas do bem comum, da dignidade humana, do respeito ao próximo, e só no final da novela isso é revelado, quando é revelado, para logo se iniciar outra novela. 

"A história se repete, mas a força deixa a história mal contada." 

Um comentário:

Quezia disse...

Além do "não saber" sofremos também de uma falta de memória crônica!