"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Da série: Desabafos de uma Educadora em Crise


FORAS (D)À LEI!
O drama do aborto para as mulheres brasileiras.

Quem é a favor do aborto?

... Tai o erro primordial, intencional, sórdido, vil, baixo, fascista, que marca a discussão sobre o aborto no Brasil. “Fé cega, faca amolada.” O pensamento dogmático não é reflexivo, nem dialógico. É pétreo, monolítico, pontiagudo, difuso, confuso, e até mesmo patético.

Quem ousa pensar, quem ousa expressar o que pensa, já sabe dos açoites da história. É marginal. Ou se reproduz inadvertidamente as grandes lógicas ou se é caçado, ora empalado, outra crucificado, enforcado, recorrentemente desqualificado, esquartejado, emparedado, lapidado, na didática da subjugação, na didática da educação para ser rebanho.

A horda fanática que se mobilizou e mobiliza para prestar um desserviço histórico ao Brasil, não fala, vocifera. Exige que o nosso Estado Laico legisle de acordo com os seus livros-armas, lidos de maneira enviesada, descontextualizada e simplificada, para atender as necessidades de preenchimento das suas frustrações, inquietações existenciais e/ou conveniências políticas, doutrinárias.

Precisam de verdades!

O que defendem os que dizem defender o “certo”, o “bom”, a tal “verdade”? Por que se armam e armam fogueiras para atacar quem, nas suas estreitezas, julgam “errados”, “ruins”, “mentirosos”? Liberdade, o que significa?

Emocionante os tão piedosos defensores da vida! Piedade daquele tipo que se sensibiliza com os mineiros resgatados no Chile, para em seguida esquecerem ou não se importarem com a violência cotidiana que os atinge. Assim como o fazem com o aborto, desmemoriados ou negligentes quando se trata da múltipla violência cotidiana que atinge as mulheres, e perpassa a discussão sobre o tema.

Pensemos nele e nelas (nas mulheres, e nas violências),

Quando as mulheres se descobrem grávidas, como reagem os seus “companheiros”? Quando as mulheres se descobrem grávidas, como reagem as suas famílias? Grávidas, quantas conseguem emprego? Grávidas, quantas se vêem sozinhas, abandonadas, sem perspectivas, rotuladas pela sociedade? A espiral de violência que geralmente conduz ao aborto não é colocada em pauta pelos Drs. da Verdade. Esta verdade não convém.

Fato é que de um modo geral as mulheres são abandonadas pelos homens que as engravidam, quando não são estimuladas por estes para praticarem o aborto. São acossadas ou expulsas de casa pelas famílias, por leituras moralistas ou pela questão material de mais uma “boca” em casa para sustentar... Também não conseguem emprego, o que afeta diretamente o seu sustento e o da criança que está por vir, e ainda carregará um rótulo dado por uma sociedade judaico-cristã, que só fala em perdão, mas não perdoa.

O tema aborto traz em si violências, e não uma violência apenas, principalmente para a camadas menos favorecidas. Numa sociedade misógina, desigual, não se pode tratar da questão que mais atendimentos gera no quesito Saúde da Mulher,  no SUS, de maneira tão parcial e tosca. O Estado não deve continuar sendo, no cadafalso social, o carrasco que executa o golpe de misericórdia, como assim o fazia depois do Santo Ofício decidir pela purificação das almas “desviadas”, só que agora praticado na “fogueira” das grades de uma prisão.

Quem é a favor do aborto como hobby ou pílula-do-dia-seguinte? Ninguém. O que se coloca aqui é o necessário e complexo debate acerca da descriminalização do aborto no Brasil, que desde 1940 torna também vítimas, em criminosas.

Legislar pura e simplesmente nunca resolveu nada na terra de Pindorama!... Fosse assim a classe política brasileira não seria eminentemente corrupta: é contra a Lei! Fosse assim não haveria abuso sexual contra a criança, sobretudo por religiosos: é contra a Lei (... e Pecado!). Fosse assim as mulheres não seriam espancadas pelos homens: agora também é Lei!...

É assim que criminalizar o aborto não resolve, só empurra o problema para as macas das clínicas clandestinas. E é lá que deixaremos morrer a questão? 

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