"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Da Série: Filosóficas


"PERANTE A NOITE CONFUSA"


Era festa num dos povoados da pequena cidade. Um tanto desengonçado, se equilibrava no salto como se desfilasse. Vestido até o ombro, meia calça preta, cabelos jogados para cliques. Todos os gestos precisamente calculados para serem femininos. Era resolutamente uma mulher. Caprichosamente mais feminina que muitas, ou todas que ali estavam.

Enquanto amiúde desfilava por entre os transeuntes, recebia como se já não se importasse, olhares e risos, gargalhadas, escárnio, ameaças. Não se comprazia com a aparente rejeição à sua figura que, vale dizer, nada fazia em prejuízo dos que ali estavam. 

Senti pena.  Todas aquelas pessoas rindo... de quê? “E ri-se a orquestra irônica, estridente”, ressoava os versos do poeta Castro Alves, a me revelar como somos afeitos aos mesmos erros, ao longo do tempo, pobres vegetais encarcerados nos nada ingênuos ensinamentos que nos fazem supor verdades, e nos tornam soldados destas verdades.

O que sabemos?

Rimos como tolos! O riso frouxo dos que ignoram e danam a achar engraçado o que não conseguem abarcar, compreender, conceber. Desqualificamos para continuar existindo com alguma validade, enquanto somos apenas arremedos, personas em série, inadvertida e confortavelmente massa passível de modelagem, orquestra obediente de maestros invisíveis.

Os sisudos senhores da Inquisição, de ilibada reputação e saber inquestionável, para a história são monstros. As pessoas por eles tornadas cinzas, para a história, são vítimas. O que somos hoje? O que seremos amanhã? Verdades até pouco absolutas agora não passam de piadas. A terra o centro do Universo? Gargalhamos delas, mas sem notar incorremos em outras.

Naquela festa, o homem travestido de mulher que desfilava para nós, encerra uma fantástica complexidade ignorada, um mistério!... Por que não o viam na sua plenitude? Por que não se permitiam imaginar o que sente aquela alma? Por que não conseguem pensar sobre as dores que o acompanham desde cedo, quando tudo o fazia sentir que desejava errado, existia errado? Sozinho.

Ainda em Castro Alves,

“Quem são estes desgraçados, que não encontram em vós
 mais que o rir calmo da turba, que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala, se a vaga à pressa resvala,
como um cúmplice fugaz, perante a noite confusa...”

Rebanhos indóceis. Tudo tão simples, e tão assustadoramente complexo!

Quando aprenderemos a não demonizar o “outro”? Quando pararemos de caçar o “diferente” (... porque não torce para o nosso time, porque não pertence a nossa cidade ou pais, porque não se veste como nos vestimos, porque não fala a minha língua ou sotaque, porque não é da mesma cor, porque não sente como sinto...)?

Quando afinal baixaremos os gládios e a “bola”, ser humano? ... Pois decerto que todos seremos cinzas, mas certamente não precisaremos ser monstros.


Imagem de Frater Albertus que representa a separação do hermafrodita em duas polaridades distintas.

3 comentários:

Fabiana disse...

Não sei qual a pretensão humana em pisotear o próximo... (e com um impulsionamento que vai além de instinto e perpassa o prazer), mas-

como Hobbes já dizia: 'Homo homini lupus'.
muito bom (:

Prof. Thiago Charme disse...

Olá Guardadora, Fiquei com muita vontade de ler e ler seus textos, mais e mais. Que complexidade aflorada!!! Um pensamento levado ao longe que nos deixa decidir sobre aceitar ou não o ser humano, este ser cruel... Parabéns! P.S. Convido-te a "sobrevoar" a nave HiiPERNOVA.blogspot.com

Elis Barbosa disse...

Meus parabéns! Estou daqui aplaudindo seu testemunho efusiva, certa, mais uma das raras vezes em que acontece, de que não estou só.

Sua fã,
Elis Barbosa