"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

sexta-feira, 23 de julho de 2010

"Qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa..."


... EM FRAGMENTOS.

Os fragmentos a seguir são frutos de um trabalho que se tornou imprescindível para mim, como Educadora: Conhecer a história de vida dos meus alunos e alunas. Tais relatos emergem da escola Pública Josefa Soares de Oliveira, do Terceiro Ano de Formação Geral, da cidade de Ribeira do Amparo, Bahia, Nordeste, Brasil.

A dimensão do processo educativo torna-se outra, o ser humano aparece na sua inteireza e complexidade, nas suas vicissitudes de alegria e/ou dores, sujeitos e objetos da sua própria reflexão.

Estar atualmente em dois universos tão distintos (uma escola particular na capital, e uma escola pública no meu interior minúsculo), é vivenciar as contradições extremas na qual estamos inseridos, produtores/reprodutores de uma sociedade ferinamente desigual.

Enfim, os relatos:

16 anos:

"Moro hoje com meus avôs e minha mãe na zona rural, numa casa sem energia e sem água encanada."

17 anos:

"Na minha infância foi um pouco triste, cresci vendo o sofrimento da minha mãe, para sustentar a mim e mais 5 irmãos. Muitas vezes eu via minha mãe chorando sem saber o que fazer para não faltar o alimento na mesa, tinha dias que a gente ia para a escola sem comer nada, e sem nenhum trocado para merendar nos intervalos, só vendo os meus colegas comerem coisas gostosas e eu nada. Com isso eu dizia a mim mesma que quando eu crescesse iria ajudar a minha mãe, trabalhar e dar tudo que ela merece. Tudo de bom, que nada falte na vida dela e das minhas irmãs."

18 anos:

"Quando a minha mãe sentiu as primeiras dores para o parto, não teve como levá-la a um hospital imediatamente, então o parto ocorreu em casa, realizado por uma parteira que era minha tia. Tudo ocorreu muito bem, e não houve nenhum problema.

Quando eu tinha 02 anos de idade fiquei muito doente, com febre, pois também estava com catapora, minha vó, mãe de minha mãe, colocou uma vela na minha mão, pois ela dizia que eu estava morrendo, não fui ao hospital. Por pouco quase morria.

Na minha vida passei por várias necessidades com minha mãe e meus irmãos, por ser filha de mãe solteira que na época precisava dos próprios pais para sobreviver, passei algumas noites com fome, sem ter o que comer."



18 anos:

Nasci (...) por uma mulher parteira, naquele tempo as condições eram mais difíceis para ser levado para uma maternidade. Eu sou o primeiro filho dos quatro que minha mãe e meu pai tiveram, o meu segundo irmão morreu com alguns meses de nascido, o terceiro foi minha irmãzinha que eu amava e amo, aos 4 anos ela foi atropelada por um carro na frente da casa dos nossos avós, eu cheguei a ver toda a cena: sei que ela está bem, em bom lugar. Minha mãe tem hoje eu e meu irmão, meu pai não está mais entre nós, ele morreu quando tinha 7 para 8 anos.

A minha família é guerreira e vitoriosa, não temos muitas condições de vida, mas o pouco que temos a gente agradece. Minha mãe, que tanto amo, me criou sem meu pai estar presente. Ela é pai e mãe ao mesmo tempo, sempre me ensinou os bons caminhos, deu educação e quer o melhor para nós. Ela que não teve tempo para estudar, estudou até a quarta série. Parou para cuidar dos filhos. Já falei para ela voltar a estudar, mas ela não quer voltar, acha que está velha, mas pra isso não tem idade.

Professora nunca escrevi nem falei de mim tanto assim, está sendo a primeira vez. Me desculpe por não me expressar tanto assim, por não falar muito da minha vida (...) É que quando penso em minha história, lembro do meu pai que se foi quando eu era pequeno, bem cedo. Lembro da minha querida irmãzinha, das dificuldades que a minha mãe e meu pai tiveram...

Penso e quero muito estudar, ir atrás dos meus objetivos, e conseguir poder dar uma condição melhor para a minha mãe, minha família. Eu vou lutar e realizar os meus sonhos."





19 anos:

"Minha gravidez no início foi indesejada, logo quando minha mãe e toda minha família ficaram sabendo foi uma reação muito ruim. Toda a minha família e a minha mãe ficaram sabendo a partir do terceiro mês, porque eu fui abusada sexualmente (...).

Um dos meus maiores sonhos é fazer faculdade de Educação Física porque gosto muito de esportes, que pena que não tenho recursos para fazer o que gosto. É como minha mãe diz, gente pobre não tem sonho. Tem que se acostumar em concluir o Ensino Médio."

19 anos:

"Sou filha de pais humildes, que batalharam para criar os seus 4 filhos. Lembro-me que dos 9 aos 12 anos as dificuldades financeiras eram maiores, dias que faltava quase tudo. Pela manhã o café era apenas fubá de milho torrado. Apesar daquela situação jamais eram feitas críticas aos nossos pais, pois tínhamos plena consciência que aquela situação não era por gosto dos nossos pais.

(...) Eu sempre prometia para minha mãe que eu ia estudar para conseguir um bom emprego (...) com isso fui colocada para estudar com 7 anos, o colégio era longe, eu saia de casa 6h, teve dias que enfrentei enchente para chegar no colégio (...) passei a estudar em outro, era uma casa que não tinha cadeira, sentávamos no chão." 

20 anos:

"Aos seis anos de idade comecei minha vida escolar, na escola Maria Quitéria, na fazenda Caatinga, no município de Ribeira do Amparo. Por descaso da época passei três anos na pré escola, e mais dois anos na alfabetização. Foi muito difícil pois os meus pais tinham que trabalhar na roça, para conseguir dinheiro para comprar meus materiais escolares, não só para mim, mas para meus irmãos. Tinha que ficar em casa com meus irmãos para minha mãe ir ajudar o meu pai na roça. Na época nem tinha água encanada, tinha que pegar água numa cacimba. Foram esses fatores que atrasaram a minha vida escolar." 


... E quando, me arranhando nas asperezas da vida, penso em pensar em desistir... Quando a sensação de impotência se avizinha aos galopes... Quando diversas dores oprimem meu coração... Me alimento da fome de tantas vidas submetidas a violência cotidiana das portas e janelas fechadas, das carteiras quebradas, dos ônibus sucateados, dos banheiros sujos, dos sonhos simples que lamentavelmente ainda são utopias...


17 anos:

"Obrigada Professora Daiane por nos incentivar a correr atrás dos nossos direitos, e pela oportunidade de contar sobre a minha vida, a Senhora é uma professora maravilhosa, nos transmite confiança. Se tivesse pessoas com garra e disposição como você no nosso lugar seria outro, Ribeira mudaria para muito melhor, nesse ano letivo estou aprendendo muitas coisas com você e espero buscar a aprender mais (...). Obrigada muito por aparecer na minha vida, pois você me fez mudar a visão para com o mundo."

:(

5 comentários:

Q. disse...

As lágrimas se tornam inevitáveis.
Obrigada por compartilhar, educadora Dai!

Ieda Rodrigues disse...

Após leitura e releitura só há algo a dizer, Dai: encantada e emocionada. Lindo ser, gostoso ler a alma sua e de seus alunos. Enriquecida. Siga semeando sonhos, pq eles se tornam realizade. Quando o sonhador é persistente, td é possível... E, td começa com um sonho... Siga semeando-os, alma linda. Beijo de luz.

Aline Najara disse...

Nossa! Que riqueza esse seu trabalho, Dai. Enquanto eu estava lendo, pensava em meus alunos... Meu Deus, que realidade diversa! Queria q eles lessem isso também... Acho que eles precisam de um choque de realidade pra perceberem que a vida é mais que msn e jogos na net. Esses seus meninos são vencedores! E vc está de parabéns, como sempre...Beijo e saudades!

Maria Muadiê disse...

Sem palavras.

Beta disse...

Agora sou eu a estar em seu blog. :) Comovida como quando ouço as fortunas poéticas de Zeca Baleiro, leio tantos relatos. Meninices precocemente adultecidas. Encontro fragmentos da vastidão que certamente é a sua lida diária. Árdua, difícil, preciosa. Belo ver como inspira e oportuna a reflexão, o resgate, a partir da experiência pessoal extrema. Cantos que não devem ser esquecidos.