"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Da série: Desabafos de Uma Educadora em Crise


UM TREM CHAMADO REALIDADE


Era mais uma quinta típica, destas que pego a estrada e vou para Ribeira dar aulas. Rotina extenuante, mas sempre animada por um entusiasmo de criança que realiza sonho. Na quinta, ainda em Salvador, acordo cedo e vou para as aulas matinais... depois destas aulas é que começa o trajeto-Ribeira.

... Se vai a tarde inteirinha na estrada, em solilóquios. Assimilo Salvador, Ribeira, existir, fazendo o caminho literal e metafórico entre dois mundos. O certo é que renovo-me ao adentrar na sala de aula da velha ribeirinha... Aquelas mesmas salas que já foram minhas quando aluna.

No entanto, nesta minha lida, recorrentemente me vejo atropelada por um "trem" chamado realidade... Ou a constatação aguda de que o que faço é tão "gota" no oceano de "precisões" a que estão submetidos os meus conterrâneos, capitaneados sempre por líderes insensíveis e ignorantes do que seja bem comum, cuidado, respeito.


Vejo a maior parte dos jovens sem perspectivas, sem estímulos para irem além, para acreditarem neles mesmos, acreditarem que vale a pena.

Na última quinta foi destes dias cortantes, de atropelo, linha do tal trem em que me vejo atada a tentar me desamarrar e ainda ajudar a salvar tantos outros imóveis, já educados na condição de vítimas.

Porém, o que fazer mesmo?

Na caderneta um dos mil avisos de cunho persecutório, que fala em cortes de salários por banalidades, do salário já tão ínfimo. Na sala, carteiras quebradas, quadro de giz estragado, parte dos alunos sonolentos das suas jornadas, que se iniciam ao romper do dia, levadas no braço, na gana de sobreviver apesar de!... Apesar de tanto descaso.

Lá se vão 21:00h, e como de praxe a escola vai se esvaziando... Professores e alunos magicamente desaparecem já por esse horário, e lá fico com a última turma. Inquietação. O silêncio no colégio incomoda aos que, ainda mais cansados, agora se vêem sozinhos, à mercê do transporte que vai embora quando "enche"... Faltando poucos estudantes, alguns motoristas vão embora deixando-os para trás.

Entretanto, mil recursos para fazê-los acreditar na importância do conhecimento: perguntas, imagens, vídeos... Mas, barulho de motor, e vez por outra aparece o transporte público sucateado buzinando e encerrando a minha aula, com a autoridade da farsa que é a Educação Pública brasileira.

Ensaio ainda uma reação, mas sucumbo ao diabo do "trem" ou ônibus chamado realidade!... Sento por alguns minutos na cadeira, para respirar fundo e encontrar motivos para ainda acreditar... Chega Maria, a senhora que zela o "prédio" desde o meu tempo. Aciono o que resta de energia.



E assim vou...

Começo a ladainha interior de me exigir apartar daquele universo "impossível" de ser modificado. Silencio. Tão difícil quanto permanecer é sair. Meu coração exige que eu continue a crer... Ir de encontro a tudo!

... Tô quase desistindo, quando no dia seguinte me chega em casa um dos meninos de que ouvi falar dias antes. Soube que numa das localidades mais carentes de Ribeira dois meninos aprenderam sozinhos a tocar sanfona, e eram talentosos. Soube também que eles enfrentam uma hora de caminhada na areia quente para pegarem o ônibus escolar para virem à escola, todos os dias. Logo me encantei e interessei pela história. Coincidentemente o colégio de Salvador me pede indicação de alguém para se apresentar no São João do Colégio... De quem me lembro? Dos meninos!... Alguns desencontros, nem imaginei que viessem mais...

Mas um deles veio ao meu encontro... E eu que estava quase convicta de que iria desistir de tudo, vi nos olhos daquele ser arredio, cabisbaixo, invisível e desprovido de qualquer porta ou janela, que eu nem tenho direito de desistir do impossível. O indaguei se já conhecia Salvador, a resposta foi um não com a cabeça... Perguntei se já tinha visto o mar, a resposta foi outro não sem palavras... Brinquei que iria colocá-lo dentro d´água, e ele esboçou um sorriso.



"Felicidade se acha em horinhas de descuido".

  1. Meu coração se enche de alegria.
  2. A sutileza me encanta.
  3. A mensagem é compreendida.
Como desistir?


Que me venham então os avisos nas cadernetas, as perseguições, os ônibus-moinhos de Quixote, o cansaço e o desânimo!... Nada que não seja aplacado pela sublime possibilidade de quem sabe fazer feliz um ser, apenas por ter sido capaz de enxergá-lo.


video

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo... profundo... poético! quem sabe a sua paixão por esta terra pode compreender ainda melhor todo o seu escrito! Lindo escrito... quando eu crescer, quero ser como você! Te amo!