"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Da série: Filosóficas.

QUIXOTESCA 

O que desejava Dom Quixote em seu Rocinante? O que o movia? Ambicionava mundos?... Há que se desconfiar daquele maltrapilho, mal armado, desafortunado, desempoderado, que ousou seguir os contornos dos seus sonhos alucinados.

Loucos e perigosos são todos os sonhadores! Precisamos alimentar a todos com o sangue putrefato das frustrações, e ensinar que o mundo é para poucos... E que se seguirmos contundentes a cartilha da norma-lidade, poderemos alçar das costas de uns tantos, àqueles “poucos”.

Precisamos acreditar cegamente quando do alto ouvimos vozes em comando a dizerem/ordenarem que nos cuidam, e cegar o olho e calar a voz do bastardo ao lado que nos ousa falar contra a mediocridade nossa de cada dia. Precisamos esmagar a voz que vier de baixo em clamores, para não permitir o incômodo à nossa santa ignorância, em cujo altar rendemos graças todos os dias, nos nossos lares interiores. Precisamos aniquilar qualquer possibilidade de libertação individual e coletiva, pois a História testemunha com seu silêncio cortante e ensurdecedor, como somos torpes, vis, egoístas, mesquinhos, e que a exceção é realmente raridade.

Matamos Jesus porque ousou falar de amor. Matamos a Irmã Dorothy porque ousou falar em sustentabilidade. Matamos Chico Mendes porque ousou falar em ecologia. Matamos Luther King porque ousou falar em igualdade. Matamos Gandhi porque ousou falar de paz. E matamos e mataremos qualquer um que ouse ser eco, reflexo, caminho para a superação deste embuste de mundo!... Qualquer um que nos afronte com suas atitudes humanizadas, que de humanidade nunca tivemos senão o conceito, para a partir dele subjugar o que não seria dela.

Enfim, alto lá com os seus sonhos! Assim como ao Dom Quixote sonhador, os ridicularizaremos, e seremos impiedosos com o nosso sadismo travestido de justiça humana ou divina! Se renda. Chore impotente na sua poça enlameada, visualizando os dedos em riste e as gargalhadas histéricas de quem se supõe de pé!...

Pereça com os seus sonhos, pois o mundo é de tal forma reduto de pesadelo macabro, que fazemos crer serem os seus sonhos pesadelos, e os nossos pesadelos os seus mais doces sonhos. “A vida (até agora) é assim!”... Um banquete de sangue, lágrimas, humilhações, sacrifícios, martírios, crucificações, onde só os antagonistas vencem no final.

Mas onde quase ninguém é inocente.






"É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...



E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social..."