"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

domingo, 11 de abril de 2010

PELO FIM DO PRECONCEITO
“tudo certo como dois e dois são cinco”

A finalidade de todo preconceito é a dominação, e toda dominação, ao longo da história, careceu de uma aparente necessidade-legitimidade para ser exercida. Assim, a partir da patente e óbvia constatação de que somos diferentes, quer seja do ponto de vista individual ou das coletividades, pintamos as idiossincrasias como menores, demoníacas, erradas, torpes, e nos valemos disso para dominarmos “o outro”.

Compreender isso já seria a derrocada de qualquer trama preconceituosa, mas não é. “Tudo certo como dois e dois são cinco”. Ainda não houve o estalo, a “sacada”, de que há uma engenharia humana no exercício do preconceito, e que acabar com ele, é acabar com ela.

Por isso que não é incomum, mesmo dentro daqueles que militam de maneira organizada na luta contra o preconceito que lhe afeta, a prática de outros. Por exemplo, será que todos os homens negros casados, que combatem o racismo, em suas casas reconhecem nas suas esposas seres “iguais” em poder e possibilidades? Será que não praticam nenhuma forma de violência contra as suas mulheres?

Em outro caso, será que aquela pessoa do sul-sudeste que lá fora foi barrada em aeroportos, prática xenófoba, ao voltar para o seu país reconhece na sua vivência como são estereotipados os nordestinos, no contexto nacional?

Será que as famílias que lutam por terra, por casa, rotuladas de criminosas pela elite refratária à igualdade social, acolhem os seus filhos que se descobrem homossexuais, e os protegem da sociedade tão violenta para eles, quanto para elas?

E a Academia capaz de verdadeiros tratados sobre a desigualdade social brasileira, será que cartesianamente não se sente superior por ser Doutor, Doutora, Mestre e afins? (res cogitans e res extensa.)

A resposta para tudo isso é desanimadora.

Lutamos apenas contra os preconceitos que nos afetam diretamente, e reproduzimos os outros como se, de maneira evidente, combatêssemos desvios, erros, aberrações. Insistimos na cegueira existencial, na afetação do ego, nas nossas conveniências pessoais.

Para os homens, ter uma mulher como serviçal em casa é cômodo. "Pegar os chinelos", "trazer a comida", "trazer a roupa", "resolver as questões relativas à educação dos/as filhos/as"!... Quando 50% da humanidade vai abdicar de ser servido pelos outros 50%? 
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Complicado.

E a mãe que se sente subjugada pelo companheiro, hesita em dizer ao seu filho: “isso não é coisa de menino”? O que é coisa de menino, afinal? A principal não seria ser superior às meninas? Logo, as mães que educam muitas vezes reproduzem o modelo patriarcal, aquele mesmo que as subjuga.

Contraditórios, incoerentes, limitados.

Vejo as formas de dominação, controle, e percebo quão simples são para serem resolvidas. Mas nem sempre o simples é sinônimo de fácil...

Colocar em xeque tudo o que pensamos, esvaziarmo-nos das certezas, das doutrinas, dos cárceres, e começarmos tudo do zero. Desconfiando não “do outro”, mas de nós mesmos. A base do erro é a ilusão, por isso o erro não se reconhece como erro, já que estamos imersos na ilusão, como diria Edgar Morin, o idealizador do pensamento com-plexo.

Teremos certeza de estar fazendo o "certo", enquanto somos apenas violentos, excludentes, cruéis.

Enquanto não soubermos que a base do preconceito é a dominação, e o verniz ideológico para justificar tudo isso é a manipulação das nossas diferenças, não haverá uma mudança qualitativa no mundo. Mesmo que a lei determine o racismo como crime inafiançável, que a violência doméstica ganhe status de crime, se continuarmos incoerentes para com o combate generalizado às práticas nocivas à alteridade, o mundo continuará o mesmo.

(... O mesmo mundo do cantor intelectualizado, que taxa o político de cafona e analfabeto, como se fosse uma inócua constatação da realidade, e como se a própria existência destes termos ou pré-conceitos, não emergissem a partir de um ponto de referência hegemônico. O mesmo mundo do imbbbecil feito milionário pela massa imbbbecilizada, que vai ao programa falar que poderia estar sofrendo heterofobia, como se nas estatísticas policiais houvesse um só caso de morte e agressão contra alguém, pelo fato de ser hetero.)

Finalmente, não podemos continuar ignorantes do princípio gerador do preconceito, da sua engenharia, caindo na sua armadilha, inclusive fazendo uso das suas benesses, pois assim continuaremos atores e não autores desta imensa peça tragicômica que vem sendo a vida.
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Sem aplausos!

8 comentários:

Luciana Ramos disse...

Bem ditas palavras. Mesmo que não queira aplausos, elas devem ecoar, acordar, sacudir, e mudar. Que assim seja. Beijos de Lu.

Luiza disse...

Suas palavras, bem ditas, me fizeram refletir sobre os meus próprios pré-conceitos... Obrigada, Dai. Venho mais vezes! =D

Ivana disse...

Seus textos me encantam. Na verdade, você me encanta completamente. Faz refletir até os mais insensíveis, e atinge aos desavisados com vontade. Obrigada por deixar sua palavras assim, para serem lidas e apreciadas. Voltarei muitas e muitas vezes, como sempre faço.
Um beijo grande.

Maria Muadiê disse...

"O oprimido é hospedeiro do opressor"

Paulo Freire

mimi disse...

e este modelo poderá se reproduzir por séculos e séculos... sejamos uma andorinha só!

Anônimo disse...

Eis um pensamento carregado da alteridade professada no escrito: Cuidado com o preconceito contra a massa imbecilizada. É preciso saber discordar das opiniões e ainda assim respeitar as pessoas que as emitem. Concordo que é necessário reconhecer as individualidades tanto quanto as formas pelas quais elas se manifestam. Ademais, as decisões democráticas merecem respeito, por mais estupidas que pareçam, a alguns. Testemunho pessoal de mudança através da luta contra o próprio preconceito: Eu aprendi a respeitar a massa imbecilizada responsável pela eleição do político cafona e analfabeto.
Sem aplausos ao contraditório.

Márcia Garcez

dai-ane disse...

Respeito a imbecilidade do imbecil que "arrota" em rede nacional que faz sexo sem camisinha porque heterossexuais não se contaminam com o HIV, cara Márcia, na medida em que não conclamo a prática outra, que não o reconhecimento desta inverdade como imbecilidade. Pós-conceito, por certo. Por outro lado chamo a massa de imbecilizada, pois traz consigo a idéia de transitoriedade da alienação proposta pela grande mídia comercial. Se as suas decisões são democráticas, talvez sejam tanto quanto foram as hordas hitleristas na Europa. Optaram por seguí-lo? Qual o poder do aparato midiático nazista?... Sem aplausos.

Quézia Neves disse...

Sempre tão mais fácil vigiarmos os preconceitos alheios! "Sem aplausos ao contraditório", Márcia?!
Esse texto fala mesmo das nossas contradições!!!

Dai, se não é possível matarmos essa fera que em nós habita, vigiemos sempre. Reflexão sempre! Obrigada por compartilhar.