"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

... como acreditar ainda?
É opressor ter ciência da nossa real condição como seres humanos. Renitentemente medíocres, invariavelmente egoístas, perenemente cruéis, ridiculamente manipuláveis, afeitos ao ódio, optantes pela ignorância, enfim, milênios de uma história de lamentáveis e lastimáveis fatos que atestam o quanto somos em geral monstruosos.
... E ai de quem ousar tentar ser uma pessoa melhor, pois será devorado pela turba dos canibais de cabeça de gente. Sê medíocre, pertença à maioria e será um sobrevivente-soldado que mata para não ser menos um, nos sistemas vários de dominação ao longo dos tempos.
Hoje, neste exato momento, e em alguns outros, me bate um sentimento que mistura revolta, indignação, insatisfação, tristeza. Um coquetel molotov existencial, por todas estas coisas ainda parcamente aqui colocadas.
Um dia Jesus Cristo lutou na terra para que fossemos melhores. Peitou regras injustas, desafiou convenções, defendeu os oprimidos. Parou numa cruz! E muitos foram o que concordaram com a condenação, não só por parte dos poderosos, mas também daqueles a quem ousou defender.
Dezenas de séculos depois a Irmã Dorothy Stang abdica de estar no país mais rico do mundo, os Estados Unidos, seu país de origem, para vir se parar num dos lugares de maior desigualdade no planeta, o nosso Brasil. Aqui 0,87 é a concentração fundiária, num índice que vai até 1,0. Dentro do Brasil se dirige para o Pará, e luta por melhores condições de vida para o camponês. É morta friamente com 6 tiros, contava então 73 anos. E muitos são os que a julgam mal, não só os poderosos, mas também aqueles que ela ousou defender da pobreza, e da própria ignorância.
Chico Mendes quis defender a floresta amazônica, os povos que vivem da floresta. Defendeu o ideal da florestania, a “cidadania” dos povos que convivem com a abundante natureza amazônica. Foi brutalmente assassinado.
Carlos Lamarca e Carlos Marighella não aceitaram a Ditadura brasileira apadrinhada pelos filhos de Tio Sam. Foram rotulados, caçados, mortos a tiros em nome do direito à Democracia para o povo. Até hoje grande parte deste povo sequer os conhecem.
Antonio Conselheiro pagou com a vida o fato de organizar um arraial nas paragens ressequidas do sertão de Canudos, onde todos trabalhavam para todos. Fanáticos e loucos, assim os chamavam aqueles que tinham interesse no fim do modelo alternativo ao coronelismo assente.
Olga Benário foi entregue aos Nazistas, ainda grávida, pelo governo brasileiro, simplesmente por ter nutrido o sonho da igualdade entre as pessoas. Gandhi, Luther King, Mandela no ostracismo, Frei Tito torturado, e tantos outros casos que me atormentam a alma.
... como acreditar ainda?
Paradoxalmente a sobrevida de que ainda valeria a pena pensar num mundo com mais respeito e amor, vem da luta destas pessoas que estão mortas, que foram mortas por nossa humanidade invariavelmente tosca.  Pensar no bem é lançar-se de peito aberto com uma mira, sabendo que será propositadamente incompreendido, difamado, perseguido, morto, simbólica e/ou fisicamente.
É opressor ter ciência da nossa real condição como seres humanos.

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