"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Guardadora de Utopias

A PESSOA DE DAIANE

Sou fruto de tudo que vivi, das coisas que amei até as coisas que reneguei visceralmente. Eu sou vocês, todos, consciente ou inconscientemente, retalhos da minha costura como ser humano. Preciso de cada momento para ser quem sou hoje, das dores e alegrias, descobertas, prazeres, decepções, frustrações, conquistas... Desta matéria nasceram os meus sonhos, as minhas escolhas, a minha vontade, a minha HUMANIDADE.

E é numa carteira de escola, de uma cidade anônima do semi-árido baiano, cujo horizonte esbarrava no horizonte, que se formou a essência do que hoje sou!... Um pouco antes disso, ainda muito cedo, me sentia profundamente curiosa para com a existência, encantada e intrigada com tudo. As explicações não me bastavam. A pluralidade de religiões logo me chamou atenção e não achava justo ou mesmo inteligível que apenas uma me fosse dada como verdade. Havia algo mais. O senso comum também não me bastava, pois logo percebia a incoerência de argumentos, quando não apenas o “é assim porque é assim”, e pronto o inacabado.

Todas estas inquietações, porém, acreditava, iriam se encontrar num lugar feito para inquietações, a escola. Por isso a escola para mim era um espaço idealizado para o mergulho neste universo, misterioso e profundo, que é existir. Buscava respostas e perguntas, principalmente uma espécie de respaldo, no sentido de me fazerem ir além, perscrutar, pertencer. No entanto...Quanto mais tentava seguir, mais percebia que não havia para onde.

A escola pública que me deram simplesmente foi feita para não funcionar, como ainda o é. Os profissionais que lá estavam, por mais boa vontade que tivessem, não lhes foram dadas oportunidades de um embasamento, aprofundamento, formação!... E se não fosse por D. Dazinha, a zeladora que zelava mesmo por todos nós, sequer teríamos carteiras para sentar. Posso vê-la ainda na minha memória, sempre com um martelo na mão, a prolongar a vida das nossas velhas carteiras, de muitos modelos, que iam assim sobrevivendo ao tempo. Desta forma também procedia com as goteiras, as torneiras, portões, tomadas, lâmpadas!... Uma educadora, que educava pelo exemplo.

Aprendi muito, mas de maneira diversa ao que deveria ter sido. Aprendi, sentindo na pele, o que é não ter a oportunidade de se ter as condições infra-estruturais para aprender. É por isso que hoje sou professora!... Para ensinar aquela menina daiane que ficou nos bancos da escola de Ribeira do Amparo, procurando entender, dentre outras coisas, por que o mundo é assim tão complexo, desigual, injusto, fascinante.

Por isso me submeto ao pêndulo de estar em dois mundos, com demandas tão diferentes quanto desafiadoras: Salvador e Ribeira do Amparo!... E em Ribeira, mais precisa e exatamente, na Escola Estadual Josefa Soares de Oliveira, onde estudei, que leva o nome da minha avó paterna, mulher analfabeta que amava e sabia o valor da educação, e que por isso mesmo pede ao seu filho para mover mundos e fundos para construir um “ginásio” na sua terra. 

Quantos me entendem? Quantos me acham louca por isso? Quantos sabem disso? Quantos sabem do que sinto ao fazer isso? Quantos sabem do que passo para estar lá? Não importa!...Quem somos nós neste mundo? Uma reles matéria perecível, que só é divina quando se permite amar gratuitamente, quando se permite se dar.

Eu amo.
...

7 comentários:

Quézia Neves disse...

Suas palavras conduzem-me sempre pra dentro: lá me encontro e é mais fácil reconhecer a tua essência. Que bom que vc deixa-se (re)velar através das palavras e ações. Que bom que vc permite-se amar de forma divinamente humanizada! Prossiga...

Roberta disse...

Relato pungente, apaixonado e precioso da construção da cidadania pela superação de adversidades, um belo ato de subversão a sua história. Uma afronta ao status quo, ou mesmo ao mecanicismo do sistema causa-efeito -- se seguido cegamente -- invertendo a dinâmica carência gera carência. O desvio que você fez a singularizou como exceção. E para que não seja sempre assim, a sua história se abre a novos caminhos, pela descoberta da vocação que é também o resgate de um passado: criativo, mas de ausências estruturais, erigido na falta e na sede de conhecimento. Percebe-se seu amor pelo ofício, a vocacão se entrevê em palavras que, transformadas em ação, certamente visam instruir, inspirar novas sensibilidades. Transcendência potencial que todos carregamentos, e do bem maior que é a educação. Muito bom, Daiane!

Roberta disse...

carregamos* :-)

Celina disse...

...Não podia ser diferente...você tem o olhar crítico aguçadíssimo, e por isso consegue perceber que os melhores mestres (como D. Dazinha) são aqueles que nos mostram com atos seu amor pela Educação. Amei seu relato, você conseguiu criar em minha mente imagens claras de Ribeira do Amparo, com detalhes que só quem conhece esse pedacinho abençoado de chão poderia imaginar...Por outro lado, existe o antagonismo do mundo urbano de Salvador, e onde se encontram mestres com valores bem diferentes daqueles que D. Dazinha pregava em sua infância.
Tenho orgulho de ter uma amiga tão intelectualizada! Parabéns por saber circular nestes dois mundos tão distintos com maestria.

mi disse...

...e você carrega "o povo" pra ir fazer parte do mundo Ribeirense tão lindo e difícil de viver... são tantos talentos, tantas meninas daianes ávidas por serem decobertas, por uma oportunidade...

Muito Lindo, profundo e especial como você...

Maria Muadiê disse...

muito lindo, Dai, adorei saber a história da escola, do "ginásio" onde vc ensina.
beijo

jaira disse...

O homem é o produto do meio(?)(.)Interrogando ou afirmando... transcendemos.