"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Desabafos de Uma Educadora em Crise

"SUJEIRA PRA TODO LADO"

As labaredas não me fazem ter dúvidas, a Inquisição persiste. Talvez os mais apressados pensem ser esta uma defesa da rebolativa professora que subiu ao palco para dançar uma das mais recentes pérolas da música baiana, mas não o é. 

O que para mim é tão revoltante, óbvio ululante em neons que piscam pela noite de breu, é que a incoerência, a parcialidade e as cegueiras do conhecimento (como diria Morin) continuem perenes História adentro.

Ícone da Educação, a atitude da professora não é condizente com a sua condição magnânima na sociedade, qual seja, educar, dar exemplos! Pena que o seu papel não seja tão importante quando se trata da sua remuneração, por exemplo. 

A incapacidade humana de analisar o todo e não apenas as partes é absurda, quando não entendiante, como na mínima possibilidade de debater coisas deste tipo, no caso “a vergonhosa atitude da professora”, com aquela calcinha “toda enfiada”. 

A cena é patética por si só.

O que me atrai deveras é entender por que diabos uma música como essa existe? O que me atrai mais ainda é entender por que diabos II esta música toca na rádio, dentro dos carros e casas, EDUCANDO, enquanto uma professora é punida por fazer o que todo mundo ouve impassível, ou mesmo aos requebros?

O que me atrai neste caso é compreender por que uma professora é demitida, enquanto Sarney “todo enfiado” na presidência do Senado não é retirado, por deixar “toda enfiada” a folha de pagamento da importante instituição do Legislativo, com seus parentes?

Enfim, talvez o fato de ser "fêmea" evoque a Eva primordial que toda mulher encerra, e mereça ser punida por fazer do seu glúteo a maçã que corrompe. Talvez, por ser professora, mereça ser punida para parecer que alguém se preocupa realmente com a Educação neste país.

A minha impotência se da aí, quando ao invés de colocarmos o todo em debate, sucumbimos aos sintomas de uma sociedade que insiste em se fazer pequena e alienada. 

Bom seria se o problema do Brasil se resumisse a coreografias vulgares em cima dos palcos, mas a verdadeira e pior vulgaridade, que faz do nosso lindo país um dos mais desiguais do mundo, costuma acontecer entre quatro paredes, em escritórios e gabinetes de gente com trajes compostos, de corte fino e moral acima de qualquer suspeita.

Mas, entre quatro paredes pode. 

Professora Daiane Oliveira

15 comentários:

Luciana Ramos disse...

Dai, queria ter sido sua aluna. Vc com seu olhar nada coisificante, de professora que amplia horizontes e vê a alma das pessoas, me faria gostar muito de história. Mas já sou feliz pelo fato de te ter conhecido, mesmo que ainda tão pouco, e cuja convivência me faz tão bem.

Frida Cores disse...

caramba... deixo aqui meu aplauso.

Julio Domingos disse...

Aí ouvi "a minha consciência tá limpa", retrucado por "claro, você nunca usou".
Sua sobriedade inteira constrasta com a crise de valor dos nossos dias que,espedaçando tudo, não apenas assombra, apavora. Muito legal ler seu texto.
Parabéns!
JC/

Pablo helder disse...

Concordo com seu pensamento, cara professora.
Em matéria publicada no Observatório da Imprensa li a respeito do caso e acredito que sua tese combina com a do autor. "Sensualidade vulgar tem 15 minutos de fama"
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=553FDS007
Parabéns pela sensatez e o olhar diferente do meio comum. Pablo Hélder

Adaciete Silva disse...

Parabéns!! Nunca ouvir discurso mais eloquente.
Adaciete silva

Sand disse...

Carla Perez dançou de forma muito semelhante, pousou nua e hoje puxa o bloco Algodão Doce, recheado de criancinhas da classes abonadas. Ronaldo (o fenômeno) usa droga e se mete em inúmeros escandalos e muito pais querem que seus filhos sejam como ele.
"Espada justiçeira de-me a visão além do alcançe!!!!!"

Aline disse...

Depois de uma tarde de longas conversas e ao largo a brisa do mar, voltei ao seu post, reli e pensei que até que ponto todos nós somos hipócritas. Hipócritas ao alardearmos um pseudo feminismo e ao primeiro suspiro corremos loucas para atender a um chamado, temerosas com uma suposta desaprovação e ansiosas por agradar sempre. Será que em algum momento essa professora (vamos chamá-la pela profissão e não pelo nome, como a nossa mídia a trata) pensou que estaria desagradando alguém, ferindo suscetibilidades ou invadindo a privacidade da família de classe média soteropolitana?
Será que em algum intervalo entre um rebolado e outro ela imaginou que iria ser capa consecutiva de um jornal querendo leitores ou assunto diário de um programa de TV vespertino de teor questionável? Previu também que seria convidada para determinada revista (segundo boatos) ou seria tema de discussões calorosas nos intervalos das escolas particulares, nos quais professores discutem entre uma mordida no pão e um gole no refrigerante, o futuro educacional do nosso país?
Provavelmente não, ela simplesmente dançou! E podemos usar os dois sentidos do verbo dançar. Do mesmo jeito desinibido que ela dançou no palco, o seu emprego dançou na escola partcular. Dançou como tantas outras dançaram, dançam e (agora bem mais que antes) dançarão ao ritmo da nova pérola da música baiana, como você bem definiu.
Concordo com você, e digo mais, qual o erro da nossa colega? Exatamente esse... ser professora nessa nossa sociedade hipócrita, será que se ela fosse balconista, secretária, advogada ou empresária teria toda essa repercussão?
Pensando melhor... se ela fosse presidente do Senado perderia o cargo ou o mandato? Vale a pena se pensar...

Jaíra disse...

Uma filha chega para o pai e confessa:
- Pai, eu sou prostituta.
O pai esbraveja:
- Sai da minha casa, não criei filha pra ser um NADA!!!!!!
-Mas pai, eu comprei um Mercedes para o senhor,casa na praia...!
E o pai
-O que você disse mesmo que fazia, minha filha?
- Sou PROSTITUTA.
Aaaaaaaaaaaaaaaaaa....que susto!!! Eu entendi
PROFESSORA SUBSTITUTA
Moral:Há muito somos um nada todo enfiado!

Luciana disse...

verdade como um gennio cria um misera dessa , e que sobra é a aprefessora , fosse um médico , o concelho o defenderia , se fossse o advogado o OAB tambem e se fossse politico recebia um cargo e nada acontencia ,,, agora uma pobre educandoa foi severamente punida ,,, .... vamos sair em defesa da profossora ,,,,,, jajajajajaj

lucilaleal disse...

Quero parabeniza-la por ter escrito um texto de muita profundidade ,com uma visão crítica desse país...suas ,seriam também as minhas palavras !!! sou professora e concordo com suas idéias ! abraços!

Diógenes Pacheco disse...

Seu texto rodou longe.
A pobre professora, minha quase vizinha, bebeu um pouco demais aquele dia.
Quem sabe não foi para relaxar um pouco dessa vergonha toda que o senado anda nos dando, também, não é?

MArtha disse...

adoro conversar com vc.

Revista Antimatéria disse...

Parabéns pelo texto...
uma reflexão menos moralista é o q precisamos.
crucificamos uma professora q dançou "Toda enfiada" mas somos coniventes e permaneçemos absortos diante das denúncias eternas de corrupção no Brasil.

A Revista Antimatéria te acompanha

http://www.revistaantimateria.blogspot.com

abraços!

Julio Domingos disse...

...Guardadora de utopias - ainda bem não se fez privada, senão serias vigia. Afinal qual a profissão mais remota: jornalista, segurança ou prostituto (a)???
Vivemos a era da instantaneidade, um mundo polaroid em b&p, sujo demais pra collor de menos. A vergonha de mim mesmo é cotidiana, por ter que conviver com tudo isso. A professora... ah, a professora, quanta inocência, no bom sentido, claro. Saiu do notório com tanto ônibus queimado.

Ma disse...

Muito pertinente seu comentário.