"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música." Nietzsche

Formspring

quarta-feira, 1 de junho de 2016

ME ENSINA A TER ILUSÃO

Se você acredita que o estupro da menina foi uma ilusão, por favor me diga que também foi ilusão todos os outros inúmeros casos de estupro, ao longo da história. Me diga que 200 mil meninas não foram feitas escravas sexuais pelos japoneses, durante a Segunda Guerra, violentadas diariamente por dezenas de homens que as tratavam como "mulheres de alívio".

Me diz, por tudo o que é mais sagrado, que Felipe II da Espanha não mandou matar 20 mil mulheres por conta do seu fanatismo religioso, bem como me prove a minha triste ilusão de ler casos de meninas cujos clitóris são arrancados, em determinados países africanos, para privá-las de sentir prazer. Não quero ter a ilusão desta dor e a crença de que muitas delas morrem em decorrência dos procedimentos feitos sem anestesia e higiene.

Façam-me também, por diligente atitude, não ver como fomos impedidas de votar, de trabalhar fora, de estudar, de patentear invenções nos nossos nomes, de assinar obras de arte por causa do nosso gênero.

Clamo que me apaguem da memória de que tive uma conterrânea morta à traição, por um homem que a desejava mas não era correspondido. Me apaguem também da memória o caso das minhas duas alunas que aqui relataram abusos sexuais, mas eu sequer tive coragem de escrever palavras de conforto. Porque minha alma grita que não há conforto.

Por favor, me ensina a ter ilusão, pois além destes casos, milhares de outros inquietam a minha cabeça e fazem ruir o meu nível de esperanças diante do gênero humano. Por favor, me ensina a ter ilusão, porque só a ilusão nos faz ser capazes de não sofrer junto com o sofrimento do outro. Por favor, me ensina a ter ilusão, porque só assim acreditarei viver num mundo livre de Violência.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Desabafos de Uma Educadora em Crise

EDUCAÇÃO x CULTURA DO ESTUPRO

Quando escolhi ser professora o fiz por acreditar no poder da reflexão para, dentre outras coisas, descondicionar as pessoas daquilo que lhes introjetaram desde a infância, mas faz mal para a convivência humana, como o racismo, a homofobia, a misoginia e todos os muitos preconceitos que tornam um ser refém do ódio que lhes ensinaram a ter.

Ouvir uma notícia ferina como o estupro coletivo praticado contra uma menina/mulher, só reforça o entendimento de que a minha incansável prática reflexiva como professora precisa continuar e ser ampliada, para lutar contra a violência de uma sociedade que glorifica a posse do corpo feminino pelo masculino, cujo discurso onipresente se materializa em falas como as de Bolsonaros, Alexandres Frota, Rafas Bastos e afins.

Porém não percebo que como professoras e professores, façamos isso de maneira sistemática, como exige a gravidade de ser a violência contra nós mulheres, um fenômeno social. Na contramão disso, ainda aqui e ali ecoam piadas e repetições de estereótipos de gênero, que apenas reforçam uma cultura preconceituosa, incluindo nela a cultura do estupro. Nesta guerra, há muitos/as de nós aguerridos/as, outros/as tantos/as não.

Tenho talvez a ilusão, a utopia, de que homens como os que estupraram a menina no Rio, poderiam não ter trilhado este caminho, se ao longo das suas vidas o condicionamento feito pelo machismo entranhado no pais, tivesse sido combatido desde a mais tenra idade, nas escolas brasileiras.

Por isso escrevo para pedir a cada um de nós:

Que possamos fazer da nossa prática docente um instrumento constante de cidadania e humanidade, problematizando em sala comportamentos preconceituosos.

E que JAMAIS sejamos nós, educadores e educadoras, reprodutores/as das imagens mantenedoras da misoginia que levou e leva tantos homens, que em algum momento foram nossos alunos, a extrapolarem monstruosamente o conceito de ser humano.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Guardadora de Utopias

NAVEGAR É PRECISO

Hoje foi dia de seminário, como sempre os tímidos sofrem. Numa turma uma aluna chegou a chorar, de nervoso.

Para acalmá-la contei ao grupo sobre uma apresentação que participei, na faculdade, bastante desafiadora para uma colega nossa.

Ela também ficou nervosa, chegou a chorar, mas com o apoio do professor Gregorio, do grupo e da turma, conseguiu se apresentar.

Como o seminário era sobre Expansão Marítima, e cabia a mim fechar a apresentação, aleguei que aquele choro da nossa colega nada mais foi do que uma reverência ao grande poeta português, que sobre este período da história havia escrito,

"Ó mar salgado
Quanto do teu sal são lágrimas de Portugal!"

Rimos todos!

Ficamos felizes por tê-la visto navegar de maneira bravia, felizes por não a abandonarmos naquele barco, felizes por respeitarmos o jeito de ser de cada um.

Respeito que aconteceu novamente hoje, respeito que defenderei sempre.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Guardadora de Utopias

A UTOPIA DE UM NOVO SER

A educação me fascina pela sua capacidade de pensar e, com isso, repensar, a própria definição de ser humano. Para ela nada pode ser óbvio, tudo deve ser objeto de questionamento, pois somos tremendamente falhos e tendemos a nos iludir com os nossos próprios discursos e artifícios.

A bem da verdade falhamos até agora em quase tudo, do sistema feudal ao capitalista, passando pelo socialismo, pelas religiões que provocaram e provocam guerras, pela instituição do escravismo, pela racialização das relações humanas, pelos preconceitos monstruosos que matam sonhos e pessoas, pela desigualdade feroz que rouba oportunidades, pela destruição do planeta, por tantas e absurdas coisas protagonizadas durante a curta história humana na terra.

Apesar de me estarrecer e compreender o imenso desafio da nossa humanidade, frente as próprias contradições e incoerências, ser educadora possibilita colocar em pauta tudo isso, acreditando na reflexão como poderoso instrumento para se chegar, quem sabe, aquela nova definição de ser humano.

Um ser humano mais ciente dos seus erros, limites e finitude, mais comprometido em errar menos. Um pouco menos quem sabe.

segunda-feira, 28 de março de 2016

Desabados de Uma Educadora em Crise

O QUE PENSARIA CRISTO DO CRISTIANISMO

Domingo pela manhã quando fui levar o lixo no depósito, encontrei um adolescente e um menino sentados. Quando desci do carro o menino disse, "me dê tia, deixe que levo!". Constrangida por perceber que o pedido era pra poder escolher, dentre o material descartado, algo que pudesse lhe render alguns trocados, segui com os sacos acompanhada por ele. Lhe dei bom dia e fui embora. 
A desigualdade social é algo que me agride profundamente.

Esta cena, em pleno domingo de Páscoa, no maior país que segue o cristianismo, no mundo, me remete a uma pergunta inquietante:

Como podemos ser um país de base cristã, se ainda existem cenas assim?

Políticos, empresários, anônimos, nas mais diversas situações, evocam o nome de Jesus tantas e tantas vezes, mas o menino ainda busca dignidade catando restos. O mesmo menino que desejaremos ver trancafiado quando adolescente, caso o lixo não renda suficiente e ele por des-ventura venha a praticar algum ilícito.

O que pensaria Cristo de tudo isso? O que a escolha do cristianismo está promovendo de transformação social, a partir de ações engajadas em torno da ideia de que somos todos irmãos?

Aliás, somos ou não somos todos irmãos? As estatísticas dizem que sim, as estatísticas dizem que não.

domingo, 20 de março de 2016

Meus Poemas

NA RUA

Tem fascista 
Comunista 
Tem golpista
E democrata

Tem anarquista
Republicano
Tem liberal 
E até psicopata

Todo mundo
Tem razão 
E ninguém
Ouve
Ninguém

E se ouve
Ouve apenas 
Aquilo que
Lhe
Convém

sexta-feira, 18 de março de 2016

O BRASIL É UM ÔNIBUS ENGUIÇADO NO MEIO DA NOITE CONFUSA

Na última viagem que fiz com os meus alunos da escola pública para Salvador, depois de muitos contratempos, quando estávamos na BR 324 o ônibus desliga o motor e é levado pelo motorista para o acostamento. Eu havia acabado de recostar a poltrona, estava esgotada fisicamente e pensava que iria descansar um pouco, depois das 48h de correria intensa, para dar conta de tudo.

Já era noite e a situação começou a gerar reações entre os estudantes, antes mesmo do ônibus parar. Então levantei e falei de maneira firme que todos se acalmassem naquele momento, pois confusão não resolveria nada. Descobrimos por fim, que havia faltado combustível no veículo, por estar com um problema no medidor. Alguns queriam culpar o motorista, mas novamente me posicionei contrária a isso, pois também não ajudaria em nada naquele momento.

Permanecemos parados por horas. Depois de mais contratempos (via Bahia que não chegava, motorista que não tinha dinheiro para comprar combustível, motor que não pegava por causa do ar que entrou), finalmente tínhamos o ônibus de volta. Fui a última a entrar no veículo, estávamos todos sãos e salvos. Em momentos de crise, mais do que em qualquer outro momento, somos confrontados com a nossa capacidade de discernimento e controle emocional.

Este episódio do ano passado me veio a cabeça, como metáfora do que estamos vivendo agora. O Brasil é um ônibus enguiçado, culpamos a empresa (PT) e a motorista (Dilma). Em meio ao caos do momento, acreditamos que atacá-los é a saída, mas estamos parados no meio da noite, pior momento do dia para enxergar bem as coisas. Fora isso não temos em vista quem a substitua facilmente, seriam bons motoristas Temer, Cunha, Calheiros?

Além disso, nós escolhemos a empresa (ou partido, no caso), tivemos liberdade para isso, temos responsabilidades. Além disso, o nosso medidor do combustível da corrupção estava quebrado, sempre viajamos sem tentar consertá-lo, mas agora queremos resolver tudo no meio da noite confusa. Não conseguiremos desta forma. Precisamos agir com calma, porque raiva não ajuda em nada neste momento.

Atacar odiosamente o PT, Dilma, Lula, tentando quebrar o veículo, atear fogo na Constituição, só nos deixará com o Ônibus-Brasil, ainda mais danificado. A ideia é que ele fique bem.