quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Nessas noites sem dormir,


A CIDADE

A minha cidade é muito engraçada
Não tem saúde não tem mais nada
Ninguém pode reclamar não
Pois você nunca vai ter razão
E se insistir em sair da rede
Bate com a cara bem na parede
Mas ninguém aqui vai admitir
Pois cada um só pensa em si
E assim é feita com muito esmero
Pra não ter nota maior que zero.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009


SOBRE LÍQUIDO E ALEGRIA DE VIVER
Hoje recebi de uma pessoa querida a receita para ficar bem: Líquido e alegria de viver. O primeiro está à mão, e mesmo sem vontade podemos fazer uso, haja vista o notório bem que faz para o ser humano, eminentemente composto de água. Já a alegria de viver é algo bem mais complexo, que não está à mão, quando não está até nas mãos de outros, de algo, de alguém.
Confesso que a vida assume feições tão inquietantes, incompreensíveis, cruéis e arbitrárias, que muitas vezes vai afastando essa “alegria” in natura que deveria ser, simplesmente o fato de estarmos vivos. Pois de fato estamos vivos, pelo menos até agora. Mas a questão é, e daí? A qualquer momento, de qualquer forma, esperneando ou não, isso poderá não ser.
Não é um almejar a eternidade, provavelmente fadada ao tédio, mas imaginar que muitas coisas poderiam ser diferentes. Se a vida é mesmo curta não deveríamos ver pessoas sofrendo sem cuidados médicos, por não terem dinheiro. Não poderíamos ver as pessoas que amamos, e isso vale pra todos que são amados, sofrerem qualquer forma de violência.
Uma utopia, eu sei. Mas ver triunfar nos noticiários os mesmos bandidos e impostores, e ver ser assassinado, perseguido, torturado, quem deseja o bem, coloca qualquer alegria pra correr.
E não me venham com esta de, somos nós os responsáveis por tudo isso. Nós quem, cara pálida? To aqui ralando pra tentar fazer deste mundo algo menos medíocre e tenho sofrido enxovalhos por isso, como diria o poeta.
Nadar contra a corrente é coisa pra seres aquáticos, e desta minha ancestralidade só me resta, de acordo com os cientistas, o meu soluço. Um anacronismo ligado ao meu diafragma. Pois é, ironicamente de água e soluços a única confluência são as águas salobras das lágrimas.
Quem sabe a permanência do impulso de fechar a glote seja para não morrermos afogados nas nossas próprias lamentações.
Enfim, líquidos sim, seguirei a receita. No entanto, alegria de viver ta escorrendo por entre os dedos da minha existência.
“Felicidade se acha, em horinhas de descuido”.

domingo, 29 de novembro de 2009


LEE
(1979-2009)

Quando o poeta Fernando Pessoa, na sua poesia aniversário, diz: “No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto.”, nos leva à reflexão de como com o passar do tempo vamos perdendo pessoas, que são parte da nossa existência, transformando-nos em seres feitos de lacunas, vazios e dores. Inexoravelmente.

Ontem soube da sua partida, assim sem um aviso, um aceno, um abraço de despedida, e permaneci durante longo tempo tentando controlar as lágrimas, mas em vão. A morte definitivamente é uma violência, principalmente pelo breu de mistério que a envolve. Para onde mesmo você foi? Por que ontem? Aqui ficamos absortos, paralisados, confusos, saudosos... Impotentes!

Sei que você não queria ir agora. Logo agora que você tinha se tornado mãe dos seus sobrinhos, como me disse, logo agora que as coisas estavam todas arrumadas, e o caminho à sua frente estava repleto de possibilidades.

Dos nossos jogos, festas, risadas, desentendimentos também, afinidades, fica a sua marca na minha vida, e a certeza navalha de que não somos eternos. Cada um de nós terá o momento de seguir este caminho, não haverá escolha.

Que as coisas se ajeitem por aqui, que os nossos corações se aquietem, e que o seu espírito repouse tranqüilo. Caso haja por ai algum lugar aprazível onde se possa conversar (e quem sabe até seja permitido bebericar com os amigos), vá guardando os lugares.

Um dia estaremos todos lá.

terça-feira, 10 de novembro de 2009


CrOC CrOC, TSC TSC!
Ando indignada com o que está acontecendo com a Educação na capital baiana, e progressivamente se estendendo para o interior, onde as instituições de ensino particulares estão sendo ENGOLIDAS pela força de uma ÚNICA marca, devoradora: CrOC CrOC!
Ninguém parece ver isso. A sociedade cegamente se dirige aos sinais fascinantes da mídia, e esta se orienta pelo que entra e não pelo que acredita, se é que acredita em algo. Pateticamente calcado ainda num vestibular eminentemente mnemônico, as instituições que assumem este novo viés pragmático-capitalista-plin-a-bolsa-subiu, acabam com o quê de humanidade que ainda resta à nobre missão de Educar.
Mas afinal, qual o ideal de humanidade que ainda acalentamos hoje? Não há. Precisamos de produtos, e a Educação se transforma num mero produto ofertado de maneira impessoal, técnica, de conteúdo estanque, visando lucrar acima de qualquer coisa, sujeita ao sobe-e-desce da bolsa, cada vez que um aluno entra ou sai dos seus quadros.
Não, não, caso perguntem se eu trabalharia lá, a resposta é não. Me recuso peremptoriamente a pertencer às escolas padronizadas, formato High tech, cuja propaganda se resume a punhados de data shows e lousas eletrônicas em cada sala, que mais lembram os filmes do ROBOCOP. Humanos-máquinas.
Neste caso, ROBOCrOC.
Estou deveras farta. Este modelinho de Educação massificada além de tudo usa métodos desprezíveis, assediam alunos, espalham boatos para desestabilizar colégios, oferecem bolsas aos “melhores” visando futuros “outdooráveis”, acabam a rica diversidade de concepções e histórias, para imprimir um marca igual para tudo e todos.
Mas, em tempos que o Capital ainda se mantém avassalador e indiferente aos sinais emitidos pela natureza, pela violência, pela fome, pelas guerras!...  Sigamos seduzidos pelas “novidades” vazias, pelas aparências pífias.
Sejamos, enfim, marionetes sendo adestradas para a difícil tarefa de sermos mais UM!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Da série:



Diálogos Brasileiros

- E aí, vamos comer Caetano?
- Não, obrigada! Não gosto de sopa de letrinhas:
- Neste caso, prefiro lula.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


... como acreditar ainda?
É opressor ter ciência da nossa real condição como seres humanos. Renitentemente medíocres, invariavelmente egoístas, perenemente cruéis, ridiculamente manipuláveis, afeitos ao ódio, optantes pela ignorância, enfim, milênios de uma história de lamentáveis e lastimáveis fatos que atestam o quanto somos em geral monstruosos.
... E ai de quem ousar tentar ser uma pessoa melhor, pois será devorado pela turba dos canibais de cabeça de gente. Sê medíocre, pertença à maioria e será um sobrevivente-soldado que mata para não ser menos um, nos sistemas vários de dominação ao longo dos tempos.
Hoje, neste exato momento, e em alguns outros, me bate um sentimento que mistura revolta, indignação, insatisfação, tristeza. Um coquetel molotov existencial, por todas estas coisas ainda parcamente aqui colocadas.
Um dia Jesus Cristo lutou na terra para que fossemos melhores. Peitou regras injustas, desafiou convenções, defendeu os oprimidos. Parou numa cruz! E muitos foram o que concordaram com a condenação, não só por parte dos poderosos, mas também daqueles a quem ousou defender.
Dezenas de séculos depois a Irmã Dorothy Stang abdica de estar no país mais rico do mundo, os Estados Unidos, seu país de origem, para vir se parar num dos lugares de maior desigualdade no planeta, o nosso Brasil. Aqui 0,87 é a concentração fundiária, num índice que vai até 1,0. Dentro do Brasil se dirige para o Pará, e luta por melhores condições de vida para o camponês. É morta friamente com 6 tiros, contava então 73 anos. E muitos são os que a julgam mal, não só os poderosos, mas também aqueles que ela ousou defender da pobreza, e da própria ignorância.
Chico Mendes quis defender a floresta amazônica, os povos que vivem da floresta. Defendeu o ideal da florestania, a “cidadania” dos povos que convivem com a abundante natureza amazônica. Foi brutalmente assassinado.
Carlos Lamarca e Carlos Marighella não aceitaram a Ditadura brasileira apadrinhada pelos filhos de Tio Sam. Foram rotulados, caçados, mortos a tiros em nome do direito à Democracia para o povo. Até hoje grande parte deste povo sequer os conhecem.
Antonio Conselheiro pagou com a vida o fato de organizar um arraial nas paragens ressequidas do sertão de Canudos, onde todos trabalhavam para todos. Fanáticos e loucos, assim os chamavam aqueles que tinham interesse no fim do modelo alternativo ao coronelismo assente.
Olga Benário foi entregue aos Nazistas, ainda grávida, pelo governo brasileiro, simplesmente por ter nutrido o sonho da igualdade entre as pessoas. Gandhi, Luther King, Mandela no ostracismo, Frei Tito torturado, e tantos outros casos que me atormentam a alma.
... como acreditar ainda?
Paradoxalmente a sobrevida de que ainda valeria a pena pensar num mundo com mais respeito e amor, vem da luta destas pessoas que estão mortas, que foram mortas por nossa humanidade invariavelmente tosca.  Pensar no bem é lançar-se de peito aberto com uma mira, sabendo que será propositadamente incompreendido, difamado, perseguido, morto, simbólica e/ou fisicamente.
É opressor ter ciência da nossa real condição como seres humanos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009




O SONHO ROUBADO DE ARLETE
Como de costume o ônibus iria passar levando os alunos para o seu destino, a Escola. Era o que deveria ter sido, mas não foi ao menos para a pequena Arlete.
Ela estava com 7 anos, e começava a trilhar os primeiros passos na escola, tão sonhada escola. Ela estudava na Zona Rural, nas proximidades da sua casa. O Transporte Escolar passava e deixava uma parte das crianças no “prédio” da chamada Avenida, e prosseguia até a sede do município com as demais.
Naquele dia, mais uma vez  o ônibus estava lotado, não havia lugar para sentar. Ônibus velho.

Arlete se posiciona perto de uma das portas com os seus pertences. Ao subir um pequeno barranco para chegar ao asfalto, alguns metros depois da sua casa, o pior mas tristemente anunciado acontece.
A velha porta do ônibus se abre e Arlete é projetada para fora, cai e de maneira assombrosa a pesada roda do veículo à serviço da Prefeitura Municipal passa por cima da cabeça da menina. O fim. Do lado, a pastinha com os cadernos, e os sonhos roubados de Arlete.
Este caso até hoje está impune, no que diz respeito à responsabilidade do agente público. O PREFEITO É O RESPONSÁVEL CRIMINAL, segundo a lei brasileira. Mas no caso de Ribeira a situação é de tal maneira asquerosa que o veículo não tinha vínculo oficial com a Prefeitura. O motorista do velho ônibus, também dono, foi o grande responsável por tudo, de acordo com o Ministério Público.
Depois de tudo isso, os transportes escolares continuam os mesmos. Arlete se foi. O Motorista luta contra um câncer, e dizem que está com os seus bens à disposição da Justiça.

O verdadeiro culpado é o único que está vivo e são, para não contar a História.